quarta-feira, 23 de setembro de 2015

GOVERNO PERDENDO GUERRA DA PROPAGANDA



“Governo perdendo guerra da propaganda”
[Quantas vezes Dhlakama rompeu diálogo com Chissano e Guebuza?]
I
 “Governo perdendo guerra da propaganda”. Este título foi publicado há 14 anos pelo Boletim sobre o processo de paz em Moçambique, da AWEPA, Associação dos Parlamentares Europeus para a África, nº 26 –10 de Abril de 2001. Questão: não será que continuamente o Governo perde guerra de propaganda? Por quê?
O Boletim, nessa altura em que Joaquim Chissano era Presidente da República, explicava essa perda, numa constatação de diplomatas, “apesar das disrupções da Renamo na AR, às quais os diplomatas se opuseram, e à posição rígida da Renamo na exigência dos governadores, que os diplomatas concordam que não pode ser feita”.
A publicação refere-se a dois factores que causavam “descontentamento dos diplomatas relativamente à Frelimo”. Quais? “Primeiro, o governo é considerado responsável pela corrupção galopante e há sentimento de que a linha dura da Frelimo ajudou a provocar a violência em Novembro passado” [Novembro de 2000 – caso Montepuez].
“Segundo, os diplomatas sentem que o governo estaria em melhor posição para poder ser conciliatório e fazer concessões”. Foi isso que “em parte levou a comunidade diplomática a questionar menos as reivindicações da Renamo. Um diplomata, por exemplo, disse ao Boletim que as exigências da Renamo incluíam a abolição imediata do sistema de justiça e a nomeação de funcionários a todos os níveis em seis províncias, pela Renamo.
Mas é evidente também que os diplomatas sentem que a Frelimo e o governo podiam oferecer mais. Por exemplo, a Renamo pediu que algumas pessoas das suas fileiras fossem colocadas nos conselhos de administração da Rádio Moçambique e da companhia do jornal privado controlada pelo governo que é proprietária do jornal Notícias, e isto foi recusado. Mas os diplomatas europeus fazem notar que directores pertencendo à oposição são comuns nas rádios estatais na Europa, como forma de garantir equilíbrio”.
O governo não continua a perder a guerra de propaganda? Dhlakama faz e desfaz. Quando manda atacar em Tete ninguém se importa. Mas se as Forças de Defesa e Segurança um dia respondessem, várias vozes sairiam a criticar o governo, seriam escritas várias cartas aos libertadores da Pátria, concedidas entrevistas, dizendo que não há vontade para o diálogo, porque, como dizia uma activista, quem quer dialogar não ataca! Por quê? Não sei. Mas pode prevalecer válida a constatação de 2001 feita pelo Boletim da AWEPA.
II
Quantas rupturas do diálogo foram registadas no período de 1995 a 2015? Melhor: quantas vezes, Afonso Dhlakama se furtou ao diálogo com Joaquim Chissano, Armando Guebuza e Filipe Nyusi? Semana passada, fiz uma referência aos discursos do padre Couto.  
Não hei-de dizer o número das tantas vezes em que houve interrupção do diálogo quer no tempo de governação de Chissano quer no de Guebuza. Darei exemplos apenas. Quanto ao presente momento, penso ser escusado qualquer abordagem, porque o tema é actual, tornando-se desnecessário porque Afonso Dhlakama insiste na “agenda concreta” para se sentar com Nyusi.
“Ruptura de conversações com a Renamo a insistir que ganhou a eleição de 1999”. Foi assim que o Boletim sobre o processo de paz em Moçambique, número 26 –10 de Abril de 2001,  descreveu os factos, que se seguiram às eleições de 1999 e manifestações violentas do ano 2000, quanto ao diálogo Chissano-Dhlakama.
“Ambas as partes concordaram em que o primeiro encontro foi amistoso e correu bem. Incluiu uma sessão dos dois líderes a sós, e algumas exigências como o da abolição do sistema judicial, foram atenuadas. Houve um comunicado conjunto”.
Outra informação interessante: “O segundo encontro, a 17 de Janeiro [2001], foi muito diferente, foi difícil, tenso e confrontacional. Não houve nenhum encontro a sós. Cada lado acusou o outro de ter mudado completamente depois de os outros terem objectado contra o tom conciliatório do primeiro encontro e forçado os respectivos presidentes a tomar posições mais firmes”.
O Diário de Moçambique de 18 de Janeiro de 2001, cita Chissano a afirmar: “Diálogo foi duro”. Claro que ambos não estavam satisfeitos. Mas uma curiosidade reside no facto de se descrever o acontecimento atribuindo culpas aos “outros”.
Constrói-se a ideia de que Joaquim Chissano simplesmente agia sob pressão de uma espécie da linha dura da Frelimo, pois, de contrário, aceitaria as exigências da Renamo: recontagem do voto presidencial de 1999, abolição imediata do sistema judicial [por estar viciado e fortemente partidário], representatividade equilibrada e tratamento igual da Renamo, no exército, na polícia, PIR e SISE [14 anos depois, isso é expresso em paridade], nomeação pela Renamo-UE de governadores, administradores e chefes de posto, nas províncias onde a Renamo-União Eleitoral obteve maioria, libertação das pessoas detidas em ligação com as manifestações de 9 de Novembro do ano 2000, desmantelamento das estruturas partidárias na administração pública…
Esta maneira de pensar mantém-se até hoje. A esse tipo de exigências e outras similares, Chissano chegou a afirmar que não aceita compromissos “chantagistas”.
Continuando no Boletim, assinalo que o diálogo Chissano-Dhlakama ocorria na Assembleia da República: “O encontro seguinte foi a 29 de Março e de novo foi tenso, com delegações maiores, de oito pessoas cada. Após cinco horas de conversações, Dhlakama abandonou o encontro entregando a Chissano uma carta já escrita e rompendo o diálogo”.
Questionava-me, semana passada, sobre as entrevistas que o padre Couto concede a semanários privados “independentes”, tecendo considerações baseadas não em factos que se podem provar, porque houve rompimento do diálogo com Chissano em 2000 e 2001, mas não só. Desconfio que se manipule a opinião pública!
Com Armando Guebuza, Afonso Dhlakama também rompeu o diálogo, afirmando que não havia seriedade. Quando? Um artigo de semanário privado, em Maio de 2011, referia:
“Recorde-se que recentemente o partido de Afonso Dhlakama rompeu as negociações (diálogo para a Frelimo) que vinha mantendo com a formação no poder (…). Em teoria, as negociações/diálogo visavam tratar aspectos malparados dos acordos de paz, mas na prática era o início de uma operação visando acomodar melhor Afonso Dhlakama e a Renamo, sobretudo, na partilha do poder político e económico”.
Porque o objectivo não é arrolar tudo, mas sim dar exemplos sobre as inverdades que são semanal ou diariamente publicadas sobre o diálogo entre Afonso Dhlakama e os titulares do cargo de Presidente da República, desde Joaquim Chissano, passando por Armando Guebuza até Filipe Nyusi, esta informação parece suficiente.
Resumindo: Afonso Dhlakama mantém a sua atitude em relação a qualquer titular do cargo de Presidente da República. O resto é pura ilusão, que resulta da propaganda, em parte, a que alude o Boletim de 2001.
Curioso é o quadro apresentado com insistência por padre Couto, partindo do período de governação do primeiro PR eleito por sufrágio universal, sem ter em conta factos ocorridos. Toma-se opinião não fundamentada e procura-se interpretar acontecimentos. A “Carta aos Libertadores da Pátria”, em parte, também contém o mesmo tipo de erros, idem outras cartas e entrevistas concedidas a jornais nacionais e estrangeiros. Tira-se proveito do analfabetismo e pobreza da maioria dos moçambicanos, manipulando os acontecimentos e perigando a paz.
Continuo a pensar que se naquele período o Governo perdia “guerra da propaganda”, mesmo na actualidade essa batalha não ganhou e isso adensa o ambiente político e favorece a Afonso Dhlakama e  Renamo.  A propaganda continua favorável a Dhlakama e seu partido, com intervenções mal conseguidas do padre Couto e outras elites intelectuais que julgam que as suas opiniões são a verdade. O que se quer? Tornar difícil a vida dos moçambicanos. Lembro-me de uma entrevista de um académico, afirmando que se “a Frelimo não mudar, o povo vai removê-la”, publicada por um semanário no dia 17 de Fevereiro 2012.
Problema: o facto de alguém não gostar da Frelimo ou se zangar com esse partido, não pode resultar em empurrar o país para a guerra. Alguém se lembra que Afonso Dhlakama chegou a dizer que se ele fosse governante, baniria o Observatório Eleitoral liderado por Brazão Mazula, quando disse o “dito verdadeiramente dito” em Nampula?
Hão-de me desculpar compatriotas, mas deixar que se diga que Afonso Dhlakama respeitava Joaquim Chissano, que ambos se entendiam e que não havia tanto descontentamento, violência e outros males, alguns dos quais provocados pela Renamo, é cultivar mentira. Dhlakama coloca-se acima de tudo e de todos e não é verdade que ele ficava no gabinete de Chissano das 8:00 até 17 horas! Ele é o único presidente de partido que anda escoltado!

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