domingo, 23 de março de 2014

Pranto do candidato a edil

Admira-me a facilidade com que as mulheres choraram e se calam. Percebo, porém, que no contexto da socialização, os homens manifestem uma certa resistência ao choro, evitando a todo o custo deitar lágrimas. Mas choram. 
O número de homens que choram começa a crescer. Fazem-no por emoção. Logicamente que as mulheres também vertam lágrimas por comoção, outras vezes porque sentem dor física. E os homens podem igualmente experimentar as mesmas sensações. 
Da PIDE, conta-se que as lágrimas dos homens não eram bastantes para o agente concluir que a sua vítima de tortura sentia dor. A isso tinha que acrescentar o grito que caracteriza o preto: “Yó mamanôooo!” 
Sem esse grito, o agente de PIDE não se sentia realizado na sua tortura. Batia cada vez mais. 
Sinto pena sempre, em especial, das mulheres acusadas de chorar lágrimas de crocodilo. Elas acabam carregado essa desconfiança quando se pensa que o seu relacionamento com o finado não inspirava amor e, por isso, a emoção não é verdadeira, não passa de fingimento. 
Mas quem é capaz de saber se choram a sério ou fingem? Por isso sinto pena delas. Sempre num dilema: se não chorarem, diz-se que “era de esperar!...”, porém, quando rola no seu rosto o fluido lacrimal, enquanto está formada a ideia de que não nutriam sentimentos de amor pelo ente cujo desaparecimento choram, são as tais lágrimas de crocodilo. 
E quem já questionou aos homens que choram, se também não deitam lágrimas de crocodilo? É este o problema da socialização. 
E lembro de um caso de mortes violentas em que um dos homicidas esteve no funeral da sua vítima, antes de ser preso, julgado e condenado, a dizer às pessoas próximas: “Os gajos que praticaram o crime são corajosos, verdadeiros assassinos!...” 
Quais gajos? Era um deles, bastante corajoso, de facto, e se tivesse chorado, ficaria bem a afirmação de que chorava lágrimas de crocodilo. 
As mais recentes lágrimas que vi num rosto, com grande surpresa, foram do antigo deputado da coligação Renamo-União Eleitoral, Manuel de Araújo. Não compreendi muito bem o que o levava ao pranto, porque acompanhei a entrevista televisiva a meio. 
O choro chamou-me a atenção, na verdade, porque surpreendente. Tinha acompanhado algumas poucas intervenções dele no parlamento e a última vez que estive em Quelimane, por coincidência, veio juntar-se a um grupo de jornalistas – conhecia alguns – numa explanada e conversou-se bastante. 
Com sinceridade, mal conheço o ora candidato ao cargo de presidente do Conselho Municipal de Quelimane, porque o tempo em que estive com ele no meio de colegas de profissão foi muito pouco. 
Se calhar, por isso, veja que as lágrimas dele na semana passada foram a valer. E se, de facto, lubrificam, os seus olhos beneficiaram dessa função. 
Esperei, em vão, que a entrevista fosse retransmitida ou, se isso tiver acontecido, na acertei nas horas em que aconteceu. Tinha interesse porque foi pouco o que percebi, metendo nomes de Bonifácio Gruveta, Samora Machel, treinos na Argélia ou outro lugar, orgulho quelimanense ferido e, se ferido, caso não tenha compreendido mal, a necessidade de resgatar esse orgulho. 
O que tenho a certeza é que o candidato chorou. Também, porque li, que pretende acabar com piscinas municipais nas estradas de Quelimane e facilitar o acesso à terra. E isto me faz alguma confusão: é que o partido que candidata Manuel de Araújo declarou publicamente que estava contra os pedidos de demissão quer de Pio Matos quer dos de Cuamba e Pemba. Via nisso traição. 
Essa palavra traição aos munícipes também ouvi nas últimas presidenciais – mudaram os actores (traidores dos munícipes) muito cedo! Dir-me-ão que política é assim, incluindo discursos da ocasião, denotando ou denunciando incoerência: “Os políticos não são sérios!” 
Se Manuel de Araújo, o candidato a edil, cita os exemplos das piscinas municipais e acesso à terra, é suposto que,pelo menos, duas razões poderiam levar Pio Matos a demitir-se: as piscinas nas rodovias de Quelimane e acesso à terra, que não conseguia resolver a contento – acreditando que De Araújo tenha feito uma apreciação da situação real da cidade onde nasceu e vive ao tempo da gestão de Pio Matos. 
Quer dizer que eventualmente não estivesse a governar bem. E deve haver mais coisas que, infelizmente, poucos sabem, tendo em conta que a justificação dada por Matos e outros demissionários não parece convincente. O que alegaram para pedir a resignação cheira a algo menos elaborado. 
Mas, tirando isso e essa de dizer que foram pressionados a demitir-se pelo seu partido, mas este diz que não – porém, ninguém quer acreditar nesta organização em relação ao assunto, sobretudo porque os edis demissionários aparecem com justificações não plausíveis – penso que também está menos elaborada a afirmação de que, tendo sido eleitos, estariam a trair o eleitorado por abdicar do cargo. 
Estar-se-ia a dizer, com isso, que o eleitorado está satisfeito, no caso de Quelimane, com as piscinas e a questão de acesso à terra afirmada por Manuel de Araújo? A ser assim, o eleitorado, então, não quer o bem-estar e desenvolvimento. 
De Cuamba, sei pouco. Mas de Pemba, tenho conhecimento de problemas. É verdade que não disponho de elementos, resultantes de estudos, para chegar à conclusão de que Quelimane, Cuamba e Pemba estariam melhor ou pior nas mãos dos demissionários, procurando equipará-los a outros municípios de Moçambique com as mesmas características. É só isso que me impede de dizer que vale a pena ou não a resignação. 
Isso não afasta a ideia de que, por vontade própria ou não, quem não tenha um bom desempenho, eleito ou nomeado, possa demitir-se. Aliás, tenho ouvido organizações exigindo a cabeça deste ou daquele governante que se julga que não toma conta do recado. 
Qualquer governante num país como Moçambique, estável, sente-se na obrigação de usar o seu conhecimento e recursos para promover o bem-estar e desenvolvimento. Outra coisa não se espera dele. O que é isso de pedirmos a quem governa que se arraste no cargo até chegar o novo ano eleitoral? 
E começo a duvidar daquelas organizações que dizem que não participarão nas eleições intercalares de Dezembro: será apenas pelo que disseram, incluindo faltar pouco tempo para o fim dos mandatos, ou até há questões de organização e recursos materiais e financeiros indisponíveis? (X)

quarta-feira, 19 de março de 2014

À ESPERA, DESDE 1992, DA BOA -FÉ DA RENAMO

I
(…) Várias vezes foi dito que a paz não tem preço. Claro que são fazíveis contas dos gastos respeitantes à busca de paz – escrevi e publiquei neste espaço, quarta-feira da semana passada. Hoje acrescento: custa também vidas, sangue, dor, suor e, enfim, é difícil calcular o preço que se paga para a manutenção da paz num cenário da existência de uma Renamo com homens armados.   
Sem nenhuma surpresa: o ministro das Finanças, Manuel Chang, disse que parte das mais-valias pagas pela Anadarko, firma norte-americana no Rovuma, seria aplicada para acomodar o novo pacote eleitoral.
E sublinho: o pacote eleitoral que, infelizmente, não teve efeitos imediatos do fim dos ataques da Renamo, reiniciados em Abril do ano passado. Próximo mês, podem completar um ano, se Afonso Dhlakama bem o entender.
O Governo e a Frelimo, através, até, da Assembleia da República, estão a cobrar a cessação das hostilidades, considerando que, se os ataques mortíferos tinham como suporte as divergências sobre o pacote eleitoral na AR, mas já houve cedências, a Renamo deveria parar de matar.
Ninguém mais se junta àquelas vozes. Mas, na verdade, isso não deveria causar nenhum espanto, tendo em conta a direcção das condenações públicas como, por exemplo, através da imprensa, por existência de supostos arrogantes causadores da guerra! (a história ainda nos poderá revelar o grau superlativo absoluto sintético ou analítico de arrogante – eu não gosto dos adjectivos, pois se assim fosse pensaria em gente insensibilíssima, crudelíssima e violentíssima)
Abro parênteses para observar: ainda bem que, na sua mais recente entrevista, Joaquim Chissano, antigo Presidente da República, deixou tudo claro – a Renamo e Afonso Dhlakama não respeitam as instituições (do Estado) e têm a sua interpretação do Acordo Geral de Paz, se é que não o interpreto erroneamente. E mais: Chissano desmentiu que dava dinheiro a Dhlakama e esclareceu que ambos não mantinham encontros secretos ou privados.
E, deixo registado, um conhecido meu, pôs à prova o que sabia dos encontros Chissano-Dhlakama, afirmando que Afonso Dhlakama ia à residência oficial do PR aos fins-de-semana, sempre que quisesse conversar. Não desmenti. Mas não acreditei, sem pensar que fosse impossível. Pela atitude de Dhlakama, que nunca aceitou o seu lugar de membro do Conselho do Estado, sempre excluiu o seu nome da lista dos candidatos a parlamentares e, por essa via, evitou liderar a bancada da Renamo na Assembleia da República e, segundo Chissano, ficou em pensar sobre uma ajuda como líder da oposição (segundo candidato mais votado nas presidenciais) porque alguém disse que estava sendo comprado (por Chissano), entre outros seus não, mantive as minhas dúvidas em silêncio.  
Antes de fechar os parênteses, o que não se percebeu muito bem é onde Chissano e Dhlakama, em terreno neutro pretendido pelo presidente da Renamo, se encontraram. Mas, creio, não deve ter sido nas matas da Gorongosa ou Sadjunjira ou Marínguè.
Pena é que o entrevistador não tenha perguntado onde esse frente-a-frente ocorreu e daí pode-se ter aberto campo para mais uma especulação, talvez a ser desmentida na próxima entrevista a ser concedida por Chissano. Porém, o antigo estadista clarificou as circunstâncias e o contexto histórico ou, se quisermos, político em que se realizou esse encontro em terreno neutro.
Voltando à vaca fria: a Renamo que não venha dizer na Assembleia da República ou outro lugar que não está a comer dinheiro resultante da exploração dos recursos naturais. Este bem poderia, até, servir para outros fins, diferentes da sua aplicação para tentar evitar as mortes provocadas por balas do grupo de Afonso Dhlakama.
Dhlakama, na verdade, certa vez deu a entender que se quisesse dinheiro poderia fazer chantagem às empresas estrangeiras envolvidas na exploração dos recursos naturais em Moçambique. Ele evitou esse caminho. Fez chantagem ao Governo, para atingir os mesmos propósitos. Pode ser uma tentativa de compensar o dinheiro perdido por redução de deputados em consequência de relativos maus resultados eleitorais nas legislativas.
Só para recordar: a Renamo tinha 112 parlamentares em 1994. Passou, coligada, para 117 em 1999. Depois dessa ascensão, caiu para 90 em 2004. Continuando em queda, conta actualmente com 51 assentos na AR e divide dez deputados em números iguais com o novel Movimento Democrático de Moçambique, ficando a Frelimo com a parte do leão no círculo eleitoral de Sofala (dez deputados).
A redução dos deputados teve um impacto negativo na Renamo: diminuição dos fundos disponibilizados pelo Estado para o funcionamento do partido. Estes, salvo erro, são proporcionais aos assentos de cada organização na Assembleia da República. Afinal, Dhlakama foi citado a dizer, numa entrevista:
 “Eu não tenho salário”. E mais: “Tenho um subsídio, que é aquilo que me dão mensalmente para comer”. Claro que se alguém dá dinheiro deve ser o Estado moçambicano, via Renamo. “(…) se fosse um salário, eu podia dizer que eu tenho isto por mês” – afirmou, explicando: “Olha, a Renamo não é emprego”. “ (…) nós temos milhares, milhares de pessoas que sobrevivem através da Renamo. O que damos às pessoas não é algo fixo. Varia”.
Pensando: Se a Renamo não paga valores fixos, claramente que à medida que for reduzindo o número de deputados e consequentemente o montante pago pelo Estado – chegou a atingir pelo menos 3.2 milhões de meticais/mês, fazendo fé nessa entrevista –, há-de ter mais dificuldades quanto à satisfação das expectativas de milhares, milhares de pessoas que sobrevivem através da Renamo. O que restava à Renamo nessa circunstância, tendo homens armados escondidos desde 1992? Deixo em aberto. Cada um pode tirar as suas conclusões e, querendo, responder.

II
A Renamo quer estrangeiros na qualidade de observadores e peritos militares para cessar-fogo e sua desmilitarização – o Governo mostra abertura. Só pelo facto de se falar de cessar-fogo após o AGP assinado em Roma, em Outubro de 1992, Afonso Dhlakama, se não estiver a reeditar o Acordo Geral de Paz procura, no mínimo, introduzir uma adenda a um instrumento que se pensava, como dado adquirido, ter deixado de vigorar, uma vez realizadas as primeiras eleições gerais, em 1994. O AGP não era transitório para a Renamo!
Como questionava, semana passada, que garantias Afonso Dhlakama e a Renamo dão de que, definitivamente, se vão desfazer dos homens armados. O Governo, semana passada, pediu uma lista e localização dos homens armados, socorrendo-se de razões logísticas.
Pode fazer sentido isso, não apenas por razões logísticas, mas também tendo em conta que no passado aquela organização ludibriou o Governo de Chissano e a comunidade internacional, com a ONUMOZ a terminar a sua missão com elogios e satisfação.
Dhlakama até dizia que não haveria guerra, tanto mais que ele não era nenhum Jonas Savimbi (Jonas Malheiro Savimbi, da UNITA). Quem não acreditou nele ou não se pronunciou ou todos tinham fé nas suas promessas de não retorno à guerra. O mundo inteiro aparentemente confiava nas suas declarações.
Às notícias sobre uma eventual existência de material bélico e homens escondidos, que iam sendo divulgadas após as primeiras eleições, ele sempre reagia com desmentidos, admitindo apenas dispor de homens de sua segurança! (Nunca se prestou atenção aos discursos de dividir o país, capacidade militar e por aí fora).
Ora, quanto à lista e localização de homens armados, dá para pensar: Como as forças governamentais estão também no terreno, o arrolamento e localização daqueles facilitaria a confrontação de dados, tendo em conta as informações que provavelmente estejam na posse dos serviços de inteligência das Forças de Defesa e Segurança.
Se isso não acontecer, o acordo duradouro defendido, com insistência, por Saimone Muhambi Macuiane, chefe da delegação da Renamo, no diálogo com o Governo, pode ser menos duradouro, bastando a Renamo assim o entender: Dhlakama pode voltar a enganar a todos.
Ouço pessoas que merecem grande respeito meu, falando de desconfianças de ambas as partes. Quem se fiaria nas palavras do presidente da Renamo, hoje, depois do que ocorreu até se chagar às emboscadas a civis e FDS, feitas por homens propositadamente deixados à margem do AGP? É pena que, se calhar, Afonso Dhlakama possa não dar mais nesta matéria, mas uma paz duradoura (sem armas), quiçá, depende da sua boa vontade.
Se com o AGP, a missão da ONUMOZ, liderada pelo italiano Aldo Ajello, não viu os homens não declarados por Dhlakama, para efeitos de desmobilização, um dos quais Jone Lindoia, sobre o qual escrevi semana passada, apesar de cerca de dois anos de  permanência em Moçambique, qual é diferença  21-22 anos depois? Este é um desafio para o Governo, observadores e peritos militares que vão controlar o cessar-fogo e a desmilitarização. Para a Renamo, é uma questão de boa-fé.
A missão da ONUMOZ, só para recordar,  integrou um efectivo de 1.144 observadores policiais e cinco mil militares mobilizados em 53 países para Moçambique. Não viu os homens escondidos. As Nações Unidas, de acordo com vários escritos, considerou a sua missão como a mais importante desenvolvida com êxito, assinalando-se o facto de até então ter envolvido um elevado efectivo.
Brasileiros e portugueses, entre outros integrados da ONUMOZ, foram agraciados com a Medalha do Mérito das Nações Unidas e Medalha de Ouro de Serviços Distintos. Luís Castelo Branco, numa tese com o título As Missões da ONU na África: Sucessos e Fracassos, deixou registado que “o sucesso da ONUMOZ pode-se explicar através de vários factores”, entre os quais, um escolhido por mim, a “vontade das partes, Governo e Renamo, em chegar a uma paz duradoura”.
Chissano confessou que deveria ter desarmado a Renamo – parece que uma das partes não queria paz duradoura, daí falar dela agora! Esta (Renamo) ainda não disse os porquês de ter escondido homens, para além de falsamente ter afirmado que só tinha um pequeno número de seguranças de Afonso Dhlakama – ninguém pergunta à Renamo ou analisa o que a levou a esconder armas e homens, depois do AGP, questão que me parece de interesse nacional, quando novamente tivermos observadores e peritos militares internacionais!
Talvez fosse bom que o deputado Saimone Muhambi Macuiane, que acredita (eu também gostaria de acreditar) numa paz duradoura diferente da alcançada com o AGP, esclarecesse os porquês de o presidente da sua organização ter escondido armas e homens, mas, doravante, pretenda mudar de atitude. Escondeu-os por quê? O que o levaria a não fazer o mesmo nas actuais circunstâncias?
III
António Muchanga, membro do Conselho do Estado e militante da Renamo, saiu a acusar o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, de ter violado o AGP. Por hipótese:  Se tivesse havido violação do AGP, quem tê-lo-ia feito primeiro, considerando que a Renamo, à partida, depois de assinar o acordo de Roma, em Outubro de 1992,   escondeu homens e armas? Não teria sido essa a primeira violação? Perece indefensável a violação protagonizada pela Renamo como partido político.
Questões como estas e outras requerem atenção. As doces palavras de Saimone Muhambi Macuiane, de uma paz duradoura diferente da alcançada no âmbito do AGP de Roma, podem simplesmente ser doces e, novamente, penalizar gente incauta e resultando em mortes na N1, Gorongosa, incluindo Sadjunjira,  Savane, Nampula-Rapale ou mesmo na Rua dos Sem Medo, Samacueza e por aí fora, onde a Renamo quiser protagonizar actos de violência a seu bel-prazer com as mentes tacanhas na sua tacanhez sobre o assunto.
Para que não haja mal-entendidos: não pretendo, com as minhas palavras, mais nada do que uma reflexão, porque uma Renamo melhor compreendida na sua atitude ao longo do tempo, permite a qualquer um fazer julgamentos menos precipitados, menos dolorosos, evitando-se a circulação de informações como as desmentidas por Chissano e, no fim, contribuir para a paz com uma busca constante assente nos factos referentes à organização de Dhlakama. A paz continua sem preço! (X)


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

PARÊNTESES SOBRE SETE MILHÕES INACESSÍVEIS (MDM, RENAMO...)

(Abrindo parêntesis: acabo de ler que os sete milhões de meticais não beneficiam os moçambicanos da Renamo, do MDM..., tal como escreveu um conhecido meu, muito jovem até no jornalismo. Ora, cá na Beira, diz-se publicamente: os fundos disponibilizados via Programa Estratégico para a Redução da Pobreza Urbana, cuja sigla é PERPU, uma vez confiados ao Conselho Municipal (obviamente da Beira),  elegem de forma privilegiada moçambicanos fiéis ao MDM – se é verdade ou não, sem má-fé, quanto a mim, esse dinheiro certamente não serve para as elites locais ligadas ao partido Frelimo, tanto na Beira como em Quelimane e, daqui a nada,  em Nampula e Guruè – é mesmo complicado, não é meu caro?).

(FONTE, Diário de Moçambique, quarta-feira, 12 de Fevereiro de 2014 -artigo completo. É mesmo complicado!)

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

ATÉ HÁ LIBERDADE DE VENDER CAMARÃO

(…) Mas, quando leio, sinto que a escrita sangra. Como intérpretes dos eventos, os que escrevem emergem com olhos de coruja e descrevem as cicatrizes espirituais, sugerindo feridas complexas – é a minha avaliação de leitor de algumas obras (DM, Estórias de expurgação, 11 de Setembro de 2013).
I
Porque os filmes que nos eram oferecidos nos alegravam devido à abundância de cenas de aventura, sem detalhes sórdidos, nunca mais me afastei das telas, até estas se reduzirem a ecrãs, contra a minha vontade, como se por capricho do impiedoso fosse encerrado um capítulo de uma longa história de diversão.
Com o tempo, mais tarde, passei por duras e cruas realidades: filmes bastante violentos ou com inesperado, mesmo sendo de ficção, quando o bem não vence o mal ou o amar não se sobrepõe ao ódio. Paulatinamente, isso, se tornou menos estranho ao ambiente do cinema e de novelas. Desilusão. É filme ou novela de final infeliz.
O filme ou novela cujo último capítulo não é de felicidade, pode ser uma forma de mostrar o mundo real, aquele detestado pela gente do bem, mas aplaudido por quem se identifica com essa realidade. Afinal, à partida, criamos ou foram-nos colocados simultaneamente o bem e o mal, personificados em Deus e Diabo.
A reprodução de Deus e Diabo foi com recurso a diferença de cores. Paulina Chiziane contesta em Por quem vibram os tambores do além? Fê-lo antes no Brasil, indignando-se com o papel reservado a um grupo de actores nas novelas (brasileiras) e também criticando a missionação sugerida como a que exalta o verdadeiro Deus diante dos demónios, pensando-se no curandeiro.
II
Abaixo…! Lembra-me um outro tempo, esta expressão. O que nunca procurei saber é se isso foi suficiente para mandar abaixar… de facto. O discurso sangra. Uma metralhadora pode matar e quase todos encolhermos os ombros – aquela da morte de vatxope!
Outra, do mesmo calibre, quando disparada, causa protestos liderados por elites, algumas das quais se confundem com intenção, manifestada legalmente nas eleições de 1998, de presidir o Conselho Municipal de Maputo, e anunciada através das declarações segundo as quais “nós podemos tirar o Governo”.
O que não se sabe é se essa voz (esse nós), que ameaça o actual Governo, por causa dos raptos e tensão político-militar, nas urnas elegeu a actual liderança do país ou outras organizações e candidatos. Não tentou, antes, escolher outros políticos, sem sucesso, tal como quis governar a cidade de Maputo em 98, também sem resultados positivos?
Quem nos sugere os tumultos da África do norte, fá-lo sabendo do facto de tanto no Egipto como na Líbia, apesar do derrube dos governos, cidadãos egípcios e líbios continuarem a ser mortos? Quem contabilizou as vítimas da Primavera Árabe, para saber se seria a escolha acertada da maioria dos moçambicanos?
Desde a queda de Muammar Kadhafi e Hosni Mubarak, ambos em 2011, se não me engano, tanto na Líbia como no Egipto, as mortes continuam a ocorrer e o sangue é derramado até hoje que escrevo. A Tunísia vive também os seus problemas. Será isso o que queremos? Não seria melhor discutirmos de forma equidistante os problemas dos moçambicanos, para estimular uma solução pacífica da violência? A guerra de 16 passou por dois presidentes ou seja, a paz demorou 16 anos, por quê?
Há pessoas nascidas ontem, que querem confundir a todos, hoje, sobretudo os da nova geração. Queixa-se, alguém, de (des)informação, embora se socorra dela para, primeiro e isso é legítimo, manifestar a sua liberdade e, segundo, o que é mau, a fim de manipular mentes  menos capazes de interpretar os fenómenos.
Quantos jornais e televisões os moçambicanos tinham de 1975 a 1992-1994? O grau de liberdade de expressão e de imprensa em 1975, 1984 ou 1994 é o mesmo que em 2013?
Como profissional de imprensa, há pelo menos três décadas, noto grandes diferenças em termos de liberdades individuais e colectivas, e até liberdades económicas. Cada emissão de TV ou leitura de jornal, permite perceber isso, ainda que seja necessário aprofundá-las. E hoje até eu posso comprar camarão livremente e especular no preço, sem temer nada. Sempre foi assim? Todos deveriam saber que não!
III
Raptos. O “DM” de 25 de Fevereiro de 2012, em artigo de primeira página, noticia a ocorrência de crime bárbaro e chocante: duas crianças de oito e nove anos, ambas vítimas de sequestro simultâneo, foram assassinadas no bairro de Macurungo, na cidade da Beira. Os cadáveres foram enterrados dentro de uma casa em construção. Mortes muito violentas. A imprensa remou sozinha, comparando com o caso mais recente.
Nélson Gentino, de 26 anos, um dos três detidos em conexão com o assassinato dos menores, disse que o rapto visava exigir um resgate de 120 mil meticais. Qual foi o eco? A edição seguinte do “DM” traz-nos a reacção do ministro do Interior, falando que tanto aquele caso como outros, de rapto, seriam esclarecidos.
Nenhuma condenação ou manifestações como na semana passada, para não falar de partidos políticos passeando a sua classe (semana passada). Por quê? O crime não foi demasiadamente violento? Sem sombra de dúvidas, foi. Era o primeiro (assassinato)? Sim. Era o primeiro rapto? Não.
Que resposta? Não sei. Verdade, analisando a parte não nobre das manifestações lideradas pela LDH e Parlamento Juvenil, nas quais não se sabe porque a imprensa privilegiou António Muchanga (Renamo), Venâncio Mondlane (MDM), só para citar dois exemplos, para além da ameaças ou avisos de uma figura, cujo interesse na governação remonta a 1998, na minha opinião, assente nas autárquicas daquele ano, é que em Fevereiro de 2012, Afonso Dhlakama se mantinha em Nampula.
Os primeiros incidentes violentos relativos à fixação e atitude de Dhlakama em Nampula, ocorreram em Março seguinte, antecedidos de cárcere privado de suposto espião do SISE. Dhlakama vê em tudo espiões do SISE. Em Sadjunira deteve muitos e ninguém se manifestou, incluindo os que iam ao famoso Samatenge, de Gorongosa –Samatenge lembra-me um tal Nwadjikiza de Matutuine ou Catembe!
IV
Dhlakama até enganou a Igreja, não teme a Deus. Para Dhlakama voltar a ser muito violento contribuíram, em parte, vozes que lhe atribuíram, através da imprensa, razão: foi provocado, etecetra. O que fazia até ser “provocado”? Ninguém questionou como também não foi feito em relação à força armada que detém mesmo após o AGP.
Durante muito tempo, vozes da Igreja, em particular, sempre garantiram aos moçambicanos: os homens de Afonso Dhlakama, em Marínguè, são inofensivos e fazem parte da sua guarda pessoal prevista no AGP. Era verdade? Perante a realidade actual, conclui-se: o líder da Renamo foi bastante astuto, enganou-nos, incluindo a Igreja. É tarde para reverter o cenário (existência de homens armados da Renamo), mas não é impossível, passando pelo diálogo e por discutir a violência de forma equidistante e equilibrada.
Se os moçambicanos continuarem a ser mobilizados para ver e contestar o lado da intervenção do poder do Estado, excluindo ataques a alvos civis e militares protagonizados pela Renamo e, por essa via, legitimando-os, dificilmente a paz retornará. Podíamos estar divididos, mas menos na morte: não há disparos nobres, a morte deve ter o mesmo peso. Todos os que morrem são inocentes tanto nas forças do Estado como na Renamo. Poupem-nos das ambições de governar o país a todo o custo, convocando acontecimentos do norte de África!
Seja como for, não é proibir sonhar: há jovens escritores que gostariam de ganhar o Prémio Nobel da Literatura ou Prémio Camões. Mas, o escolhido, o laureado talvez nunca tivesse pensado nisso, e é justamente por isso que mereceu a distinção como reconhecimento do seu talento e trabalho desinteressado. A governação segue por mesmo caminho. Ambicionar o poder, nem sempre significa chegar ao trono.
Volto a dizer: se tiver dinheiro, posso comprar e vender camarão para especulação. Não terei problemas. Mas foi sempre assim? Lembremo-nos da conquista das liberdades para não retrocedermos. (X)





DHLAKAMA NÃO ANALFABETO, CONSTITUCIONALISTA


Vezes há, em que se torna difícil discutir Afonso Dhlakama/Renamo na cena política moçambicana. Talvez até dissesse: sempre é arriscado! “Eu assessoro os meus assessores” – disse Dhlakama, numa das suas declarações, faz tempo, deixando todo o mundo boquiaberto. A mais recente afirmação: “Eu não sou analfabeto”. E esta! Acaso, alguém teria dito que ele não é letrado? Vimo-lo, em Outubro de 1992, a assinar o AGP. Não é nenhum Lobengula: tem-se ideia das escolas frequentadas antes de apostar em armas.
Se podem existir dúvidas sobre a sua atitude, uma residiria em saber se deixou de ser rebelde ou não, se fosse o caso. Só o caso de escolher ficar nas matas em vez da cidade, dá para uma reflexão. E no dia em que ele decidir sair de Sadjunjira, tirar-se-á a ilação, para os moçambicanos amantes da paz, do preço da repetida afirmação: “Dhlakama é livre de viver onde quiser”. Essa liberdade está a custar sangue e dinheiro aos moçambicanos.
Ele afirmou não ser analfabeto, para dar substância à sua vontade de inviabilizar as eleições de Novembro, alegando inconstitucionalidade, ameaçando rejeitar os resultados das autárquicas e revelando insatisfação pelo facto de o MDM estar disposto a participar na votação, contra planos de boicote. Parecia zangado!
A novidade da declaração de não ser analfabeto, se for, está na insinuação da veia de constitucionalista. O resto é habitual: ataques verbais à Frelimo e ao MDM, incluindo a tendência de não reconhecer a vitória dos adversários políticos. Desde 1994, custa ao líder da Renamo reconhecer a derrota.
O debate público de ideias tem regras. Uma assenta no resumo da tese do oponente. Outras são discutir com base em factos e não recurso à emoção, entre tantas possíveis. Dhlakama não age com emoção? Eis a questão. Mas convém observar que ser letrado não é, à partida, versar em Constituição.
 A interpretação das leis tem dado muito pano para manga não só entre nós, moçambicanos, mas também envolvendo outros doutores da lei pelo mundo fora. Os médicos, engenheiros e tantos outros doutos precisam de advogados.
Não seriam a Renamo e Dhlakama duas excepções! Sucede, porém, que se o líder da Renamo percebe da Constituição, levanta várias questões: encabeça homens armados quer em Sadjunjira quer em Marínguè e, provavelmente, em outras zonas do território moçambicano. É legal? Esses ou outros (homens) mataram pessoas este ano e destruíram bens.
Qualquer constitucionalista saberia que isso é contrário à lei. Complicadíssimo é mesmo compreender Afonso Dhlakama e a Renamo. Querem socorrer-se da Constituição e outras leis, mas simultaneamente não respeitam as leis e não querem que na discussão se usem instrumentos legais. A Constituição só vale quando convém às suas figuras e organização? O que está a acontecer em Moçambique?
Em parte, pessoas desavindas com outras, mas representando um número pequeno em relação aos vinte e poucos milhões de moçambicanos, atiçam o fogo ou por pura vingança pelas ambições não satisfeitas ou simplesmente esperam tirar dividendos em caso de caos. E os porquês de estarem desavindas, que se saiba publicamente, em alguns casos, parece coisa pequena, como seria o facto de um alguém ter sido impedido, por um pequeno grupo, de usar um trapo! Não é mesquinhez, olhando para as mortes de pessoas nas estradas? Dhlakama nega sair de Sadjunjira porque, tal como disse, o caminho está fechado.
Não explica, no entanto, como o seu secretário-geral, Manuel Bissopo, sai e entra à semelhança de outros quadros da Renamo, parte dos quais vive na cidade de Maputo, longe das ameaças de guerra. Bissopo esteve na Beira no dia 4 de Outubro, com dísticos ameaçando não haver eleições sem a Renamo.
Semana passada, o porta-voz da Renamo, Fernando Mazanga, falou de homens e armas para defender o povo. O que se dizia, antes, e importantes figuras religiosas, durante muito tempo, defenderem-no à luz do AGP, é que tais homens (e eventualmente armas) constituíam a guarda de Afonso Dhlakama. Mas, hoje, Mazanga surge com uma nova versão.
É mesmo difícil compreender a organização de Dhlakama. Mesmo a explicação dada para o ataque ao posto policial em Muxúnguè, no tal “desenrasquem-se” ordenado por Afonso Dhlakama, não colhe. Se é guarda de Afonso Dhlakama, tem de estar a guarnecê-lo e não a protagonizar ataques à mão armada, seja qual for o alvo. E falar em nome do povo torna-se desprestigiante. Qual é o povo defendido, a ser morto? A não ser que a Renamo soubesse distinguir, entre as suas vítimas, dois povos moçambicanos.
Ninguém dá importância a Afonso Dhlakama? Penso que tem sido acarinhado e tolerado. É membro do Conselho de Estado, mas não quer saber deste órgão para nada. Quando convoca conferência de imprensa em Sadjunjira, os jornalistas lá vão a correr.
O antigo Presidente da República até já lhe propôs um salário/pensão, apesar de não participar na cerimónia de sua investidura. Requereu propriedades para exploração de recursos minerais, foram-lhe concedidos, e é o único, à margem da lei, com homens armados a circular a seu bel-prazer.
Não se pretende dizer que tanto a Renamo como o seu presidente não façam reivindicações, mas que, sim, não usem o “vale tudo”, a exemplo de matar! E sobretudo o seu saber os torne politicamente fortes e não façam o que, por provável falta de boa leitura política, ocorreu depois da existência da coligação Renamo-União Eleitoral (RUE).
O que aconteceu com a RUE? Simplesmente, a Renamo entendeu que o relativo sucesso obtido se devia unicamente à sua imagem política e do seu líder. Não compreendeu o jogo de dar e receber na sua reciprocidade plena. Hoje não governa em nenhum município e tem o mais reduzido número de deputados na AR, desde as históricas eleições de 1994.
Se vingarem as autárquicas de 20 de Novembro, não estará representado em nenhuma Assembleia Municipal. Falhas de cálculo?! Dhlakama deveria consultar outros constitucionalistas. A Renamo deveria consultar outros constitucionalistas, para se juntarem ao saber constitucional do seu líder. E a via das leis é a melhor (e legal) relativamente à armada.
“In” Diário de Moçambique, 16 de Outubro de 2013

PS:
 Jornalistas que estiveram com Dhlakama em Sadjunjira, recordam-se da primeira justificação do líder da Renamo, para não se encontrar com o Presidente da República? Que eles (os jornalistas) seriam os primeiros a escrever que Afonso Dhlakama recebe dinheiro da Frelimo.
Por isso optou por constituir a sua equipa para dialogar com o Governo.
Se os moçambicanos adivinhassem teriam pedido, mas provavelmente sem sucesso, em nome da paz, que os jornalistas não escrevessem que Dhlakama recebe dinheiro da Frelimo. Talvez ninguém morresse ou seu sangue derramasse.
Mas ainda isso me recorda uma entrevista que li, por acaso, atribuída a Ericino de Salema, em que este perguntava a Dhlakama quanto recebe? Eis excertos dessa entrevista:
Dhlakama nega revelar quanto ganha
Pergunta (P): A Renamo recebe 3.2 milhões de meticais/mês e o estudo diz que a gestão financeira no seu partido é ultra-deficiente. Já que estamos a falar de dinheiro, pode dizer quanto dinheiro recebe mensalmente como presidente da Renamo?
Resposta (R): Eu não tenho salário.
P: O que tem, então?
R:Tenho um subsídio, que é aquilo que me dão mensalmente para comer.
P:Pode dizer aos moçambicanos qual é o seu subsídio mensal?
R: Não é preciso, porque não é salário; se fosse um salário, eu podia dizer que eu tenho isto por mês.
P:Não acha que revelando quanto tem por mês passaria a ideia de ser uma pessoa transparente?
R: Olha, a Renamo não é emprego.
P:Sim, mas o estudo faz fortes críticas à gestão financeira dentro da Renamo...
R: A Renamo não é empresa para dizer que paga-se “X”, paga-se “Y”; nós temos milhares, milhares de pessoas que sobrevivem através da Renamo. O que damos às pessoas não é algo fixo. Varia.
P:Pode, sem citar nomes ou posições, dizer qual é o subsídio mais alto na Renamo e qual é o mais baixo?
R:Isso não tem interesse.
P: De princípio, há eleições gerais em 2009. Voltará a candidatar-se a PR pela Renamo?
R:Por que não? Mas isso vai depender do meu partido. Nós vamos fazer o congresso. Sabe que nós adiámos o congresso que estava planeado para este ano para o próximo ano. Vou-me candidatar a candidato pelo partido e, se for eleito, vou concorrer a PR. Certamente que haverá outros candidatos, pelo que tudo dependerá da vontade dos membros.
P:Já se candidatou a PR em três eleições e parece que, de ano para ano, as chances de ganhar estão a diminuir. Não acha que é chegado o momento de se candidatar também a deputado da AR, talvez para chefiar a bancada e controlar tudo por dentro, para que a caravana não lhe passe ao lado?
R: Meu amigo, as suas perguntas parecem ser uma investigação, mas eu, como sou democrata, vou responder-lhe. O objectivo da Renamo não é só o Parlamento. O meu objectivo fundamental é de colocar a Renamo no poder.
*Especial para o SAVANA


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

ABSTRACÇÕES SOBRE A PAZ EM MOÇAMBIQUE

Sexta-feira, dia 4 de Outubro de 2013, 21º aniversário do Acordo Geral de Paz. Trabalhava. Outros também desenvolviam as suas actividades, incluindo as de abstracção sobre a paz, com recurso às televisões, esse meio de massas usado até para manipulação das próprias massas.
Concentrei-me, durante os intervalos. Fiquei atento, a ouvir um dos grupos, dada a actualidade do tema paz, sugerida pelas rondas do diálogo Governo-Renamo e ataques ocorridos em Muxúnguè e Savane, em Sofala, vivos na (nossa) memória.
Nunca considero perda de tempo, seja qual for a discussão, sendo interveniente directo ou não. Mas, no caso questionava-me: Será que se está no âmago da paz, como questão de momento?
Ouvi as teorias possíveis e imaginárias sobre o que era a paz, todas válidas, desde a que começa em casa, em cada família ou homem e mulher, a paz interior ou espiritual e, para não variar, pobreza, distribuição da riqueza, direitos humanos, juventude ou jovens e por aí fora. As capacidades de abstracção de cada um dos tantos intervenientes não poderiam ter passado despercebidas!
Questionava-me novamente: Com tantos conceitos, definições ou formulações sobre a paz, aonde se pretende chegar? Fiquei com medo, devido à incerteza, suspeitando ser possível tornar a paz algo inatingível.
O que é a paz? Por que não se pode discuti-la na actualidade, usando as referências vivas, como, por exemplo, os casos Muxúnguè e Savane, relacionando-os com Sadjunjira ou Marínguè?
Para mim a paz, antes das mais credíveis análises ou especulações, é ameaçada pela violência ocorrida e latente, e daí a urgência da busca de soluções para que isso não se repita. Sempre essa intranquilidade, específica, está associada à existência de uma força residual vista, por conveniência (de alguns) durante os 21 anos do AGP, como inofensiva, apesar de desordens registadas através da imprensa, umas menos ou mais graves que outras.
Pensando assim, a paz poderia de forma privilegiada ser discutida como o único dinheiro que cada um tem para sobreviver e caso seja gasto em despesas fúteis, o risco é de vida – ou para a obtenção de alimentos, não havendo dinheiro porque gasto em coisas menos primárias, o recurso seria o cometimento de crimes. Aí, vi a paz atingível, algo concreto, o substrato da existência colectiva.
Quer dizer, essas abstracções feitas em diferentes ocasiões ou fóruns são muito importantes. Mas, acima de tudo, parece urgente discutir a paz num contexto de existência de ameaças, fazendo a gradação do problemas a solucionar, partindo do primeiro, seja na escala de cinco, dez ou vinte.
Quando me refiro à escala, sugiro a identificação do problema número um, depois dois, três, quatro e cinco, na escala de cinco. Obviamente se numero os problemas, tenho intenção. Mas a minha gradação não deve ir da questão menos preocupante para a mais no conjunto das inquietações.
Dou um exemplo: a que se deve o actual diálogo? Se, por um lado, é verdade que sempre houve diálogo, por outro, o ainda em curso partiu de uma situação gravíssima, testemunhada por escoltas para garantir a segurança de pessoas e bens no troço Muxúnguè-Save da N1.
Logo: o problema paz passa por remover o obstáculo em relação ao qual ninguém contabilizou os prejuízos acumulados, incluindo casos de famílias obrigadas a pernoitar com urnas em transladação, porque a circulação de viaturas não pode continuar por razões de segurança, sendo interrompida no Save ou em Muxúnguè.
A formulação de premissas para a consumação (conclusão) dos ataques, na discussão sobre a paz, nunca deve ser ignorada. Em palavras simples: as ameaças e ataques a alvos civis e outros na N1e em Savane foram possíveis porque existe um grupo armado. Este é o aspecto primário, antes de se pensar na paridade, distribuição justa de riqueza, que são problemas reais a serem, em devido tempo, resolvidos.
As abstracções que se fazem adensam mais do que desanuviam o ambiente político. Se alguém olha para a força da Renamo como um simples instrumento de pressão sobre o Governo, minimiza o problema, que não é resolvido desde pouco depois da assinatura do AGP, em 1992.
O dia 4 era um dia especial para se sugerir como eliminar esse suposto instrumento de pressão. O diálogo pode resolver várias coisas, mas se a referida força não for reencaminhada para outras tarefas, nos próximos anos continuaremos a ter o mesmo problema. Sublinho: se houve ataques, estes foram viabilizadas pela existência de homens armados, com essa capacidade.
Pensemos que o AGP foi assinado há 21 anos. Se visava pôr fim à guerra, como o principal problema para a maioria dos moçambicanos, como se explica hoje nova ameaça de conflito? Mais do que outras teorias, vinga o de homens preparados para isso, poucos ou muitos, não interessa, mais capazes ou menos capazes, também é uma questão secundária.
Não saltemos para a descoberta dos recursos minerais, contornando Marínguè e Sadjunjira. Esse (descoberta de recursos minerais) e outros problemas, embora seja necessários discuti-los, não são a essência da razão de ser, até, das actuais abstracções. E não as fazemos nas mesmas condições da Grécia antiga, porque temos questões básicas por resolver.
Receio que nos especializemos em reflexões, deixando para trás o concreto. Mais tarde podemos sofrer um grande recuo, pois em plena implementação dos projectos resultantes da descoberta dos recursos minerais, seremos surpreendidos com a existência de um grupo disposto a destruir tudo, a fazer nova guerra, porque simplesmente foi visto como uma força/instrumento de pressão para reivindicação da paridade nos órgãos eleitorais.
Em 21 anos, a Renamo nunca tinha feito ou reivindicado emboscadas na N1. Envolveu-se em outros actos de violência, até mais graves, mas as suas ameaças de paralisar o país ou dividi-lo não incluíam atirar contra alvos civis e militares ou paramilitares, com seu líder a confirmar ter deliberadamente dado ordens nesse sentido. E passam 21 anos da assinatura do AGP! (X)


terça-feira, 24 de setembro de 2013

HOMENAGEM A DEFENSORES DA LIBERDADE DE IMPRENSA NA ABI

Defensores da liberdade de imprensa recebem homenagem na ABI

20/09/2013 - 19h03
Akemi Nitahara
Repórter da Agência Brasil
Rio de Janeiro – Personalidades internacionais que denunciaram escândalos de espionagem e vazamento de informações confidenciais foram homenageadas hoje (20) na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). A primeira entrega da Medalha de Direitos Humanos da ABI foi dedicada a Julian Assange, Edward Snowden, Glenn Greenwald, Bradley Manning, Aaron Swartz e Mordechai Vanunu.
De acordo com diretor da Comissão de Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI, Mário Augusto Jakobskind, a homenagem é uma forma de reconhecer os serviços prestados à humanidade, ao direito de cidadania e ao direito à informação.
“É uma lembrança também para mostrar para o Brasil que hoje o mundo é global, nós precisamos ter solidariedade a figuras desse porte que sacrificam suas vidas pessoais, inclusive com ameaças à própria vida, ao direito de ir e vir. Eles precisam ser lembrados, tornados figuras públicas e homenageadas, pois estão prestando um serviço de utilidade pública à comunidade internacional, à humanidade mesmo”.
Jakobskind lembra que o direito à informação está relacionado ao pleno exercício da cidadania, quando é uma informação “sem subterfúgios e sem manipulações”. “O principal da homenagem é para que a comunidade internacional tome conhecimento que entidades brasileiras que participam das mobilizações e movimentos sociais estão reconhecendo os serviços prestados por esses cidadãos pelas informações, inclusive relacionados ao Brasil, a espionagem que todos nós sabemos, essa ocorrência lamentável. E graças a ele [Snowden], na verdade nós confirmamos o que já sabíamos, por indícios ou por uma série de questões, agora é confirmado”.
O norte-americano Edward Snowden está envolvido na divulgação do escândalo da espionagem feita pela Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos. Ele tornou público os detalhes de como é feita a vigilância sobre o tráfego de informações e foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Snowden vive em Moscou, na Rússia, onde conseguiu asilo político depois de passar um mês no aeroporto da cidade.
O advogado e escritor Glenn Greenwald divulgou as informações repassadas por Snowden no jornal britânico The Guardian. Seu companheiro, o brasileiro David Miranda, foi detido no Aeroporto de Heathrow, onde passou por interrogatório e teve seus pertences apreendidos. Atualmente, Greenwald mora no Rio de Janeiro.
O australiano Julian Paul Assange é responsável pelo site Wikileaks, que tem publicado uma série de denúncias e informações sigilosas do governo norte-americano, inclusive relacionadas ao tratamento dos prisioneiros de Guantánamo e o envolvimento dos Estados Unidos nas guerras do Afeganistão e Iraque e telegramas secretos da diplomacia. Foi considerado Homem do Ano de 2008 na Franca e entrou na lista dos 100 homens mais influentes do planeta da revista Times em 2011. Assange vive há um ano na embaixada do Equador, em Londres.
O soldado norte-americano Bradley Edward Manning foi preso em 2010 e condenado a 35 anos de prisão por acesso e divulgação de informações sigilosas. Ele foi acusado de vazar 700 mil documentos para o Wikileaks, mas a acusação não foi provada. A após a divulgação da sentença, ele pediu para passar por tratamento hormonal e passou a se chamar Chelsea Elizabeth Manning.
Também norte-americano, o ativista Aaron Hillel Swartz ajudou a criar a licença Creative Commons, que possibilitou acesso a milhões de arquivos públicos do judiciário norte-americano, textos acadêmicos e bancos de dados. Em 2011 ele foi preso, acusado de compartilhar artigos em domínio público pagos pela revista científica JSTOR e de invasão de computadores. Ele suicidou-se em janeiro deste ano. Depois da morte, promotoria retirou as acusações contra ele.
O último homenageado nesta primeira edição da medalha é Mordechai Vanunu, que nasceu no Marrocos e se tornou técnico nuclear em Israel. Ele revelou informações sobre o programa nuclear israelense, divulgadas pela imprensa britânica em 1986. Vanunu foi sequestrado em Londres pelo serviço secreto israelense e condenado por traição. Ficou 18 anos preso, mais de 11 em cela solitária.
Edição: Fábio Massalli
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