quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Estórias de expurgação

Chegou o tempo de produzir também obras policiais, assim pensa pelo menos uma editora, entendendo abundar matéria suficiente para esse tipo de parto, consubstanciado a necessidade com recurso aos tantos crimes ocorridos e que continuam a dominar as preocupações dos moçambicanos: raptos, pedidos de resgate, assassinatos de civis e agentes da Polícia, entre os mais destacados males, pensando-se na lavra sugerida.
Pus-me a reflectir sobre isso. Por que se escreve esta estória e não outra? Talvez sem uma resposta trabalhada fosse de dizer que cada filho nasce quando chega o tempo. «Se calhar mesmo o prematuro, nasce porque chegou o seu tem de sair do vente» – penso eu, reconhecendo os segredos da mãe natureza e as fontes de inspiração para tudo, mesmo para indivíduos como eu, não escritores.
Mas, quando leio, sinto que a escrita sangra. Como intérpretes dos eventos, os que escrevem emergem com olhos da coruja e descrevem as cicatrizes espirituais, sugerindo feridas complexas – é a minha avaliação de leitor de algumas obras.
Sinto isso ao ler e reviver episódios tidos ontem como de somenos importância, mas que ora, como se fosse um despertar, na memória dos mais talentosos, podem estimular a escrita e publicação de best-sellers.
Voltei em pensamentos ao início de 1986, em Chimoio, saía Manuel  António e entrava Rafael Maguni na governação de Manica.
Maguni, primeiro embaixador de Moçambique em Harare, era bom de contar estórias e de as escrever também. Com a sua pena na mão, tornava-se Vandole Ukalyoi.
Vandole ukalyoi, como uma expressão, fazendo fé na explicação de um meu amigo de longa data, que fi-lo passar por quem não era durante muito tempo, até tudo se explicar acidentalmente no mês passado, justamente porque raras vezes pergunto sobre clãs, tribos ou etnias, disse-me que quer dizer “vejam-me fumigando”.
E o bom do Maguni estaria fumigando por quê? Não chegamos aos porquês de não só fumigar, nem também ao facto de nos convidar a vê-lo a defumar. Posso lembrar-me, pois passam longos anos e não mais voltei a ler os seus escritos porque morreu, é que eram lavras inusitadas.
Pensava que, nisso de valorização, pode ser ainda possível fazer a recolha da produção em vida de Vandole Ukalyoi e publicá-la em livro. Assim li Areosa Pena e pode-se reler outros cronistas do tempo em que era difícil sonhar com um livro. Mas havia muita imaginação para contrariar essa dificuldade.
E vou, antes, dizer o que não ouvi da boca de Rafael Maguni na época em que governava Manica, mas colegas de profissão garantiram assim ter acontecido.
Chimoio, além dos pontos como o cruzamento do Inchope, onde se podia interromper a viagem de um jovem em idade militar para ser incorporado na tropa, sem se despedir  de seus familiares, passando curto ou longo tempo a reinar tristeza, dependendo de onde fizesse a preparação político-militar e estivesse afecto para combater, foi por instantes abalada pela operação tira camisa.
Operação tira camisa era a incorporação forçada de jovens nas fileiras das Forças Armadas de Moçambique, à margem do previsto na lei do SMO.
A pacata cidade de Chimoio ficou assustada e eu, que conhecia essa operação da cidade da Beira, embora sem passar por uma experiência directa, por ocorrer intensamente enquanto me encontrava fora do Chiveve, cheguei a pensar que acabaria mobilizado para a guerra.
Quando fui à RM, em Chimoio, garantiram-me que Maguni tinha deixado orientações claras: jornalista não pode ser mexido. Por quê? Com o seu trabalho, já estava a combater…
Verdade ou não, não soube de jornalista sujeito à operação tira camisa. Por coincidência, na cidade de Chimoio, foi passageira. Levou menos tempo. Talvez fora da área urbana tivesse demorado tanto.
Mas, como escrevia, o bom do Maguni escrevia e contava episódios. Um dos tais eventos de somenos importância, cujo alcance hoje pode inspirar quem goste de escrever e registar o nosso percurso histórico, passado recente, ocorreu em Harare. O evento só tem explicação porque em determinado momento político e em certos ministérios trabalhavam moçambicanos e líderes distintos de tantos outros.
Contou ele que, no tempo em que era embaixador de Moçambique em Harare, ocorreu um mal-entendido compreensível de acordo com a própria história do Zimbabwe, diferente do processo de conquista do poder pela Frente de Libertação de Moçambique, quanto à aglutinação de nacionalistas na frente de combate, independentemente de maiorias excluídas ou minorias privilegiadas sugeridos nos tempos correntes.
Desembarcando uma delegação ministerial liderada por moçambicanos fora das cogitações de políticos locais ou pretendendo eles mandar uma crítica indirecta, imiscuir-se na vida alheia, entendeu-se que a comitiva de Moçambique estaria por chegar ao aeroporto.
Os moçambicanos, até hoje, mais ou menos, não se distinguem pelos nomes. O apelido nem sempre é sugestivo, lembrando o episódio envolvendo uma adolescente, de um grupo prestes a embarcar para as terras de Fidel Castro, nos anos 80, diante de quem fazia chamada, mas este a insistir em pedir a sua presença, por não associar o nome à sua pessoa.
O conceito de moçambicano em alguns políticos zimbabweanos era diferente do construído durante a guerra de libertação e nos movimentos nacionalistas e afins surgidos nas escolas e outros centros de cultura e do saber.
Maguni explicou, pois, que a delegação ministerial acabava de desembarcar e era encabeçada pelo ministro e demais quadros do respectivo sector, para o espanto de políticos zimbabweanos, que ao fim e ao cabo se conformaram com a realidade do país vizinho.
Só mais tarde o embaixador se apercebeu da imagem de moçambicano na visão desses políticos, os quais tinham outras referências em determinadas esferas, sobretudo na política, correspondendo à sua própria história de auto-determinação, passando pelo regime de Ian Smith.
Mas porque isso? Se releremos a própria história da FRELIMO, podemos reencontrar tais momentos e episódios, essas perguntas feitas em certos momentos, dependendo da visão de quem as faça e, se calhar, das motivações.
Mas é bom que o país sangre na sua escrita. Quem tiver criatividade pode produzir um best-seller. As obras policiais terão de esperar, pois ainda temos assuntos que constituem as nossas principais fontes de inspiração. Haverá o tempo em que não  serão temas de somenos importância na nossa lavra como se prova hoje em relação ao passado recente. O tempo é mesmo mestre. (x)





quarta-feira, 24 de julho de 2013

Chissano-Dhlakama e Guebuza-Dhlakama

(Lembrando fórum presidencial, em 1995, e Conselho de Estado, em 2005)
Porque desconfio dos debates sobre a tensão em Moçambique tendo como ponto de partido o meio e não o início dos eventos, mas convencidos, nós, da razão ou justeza e verdade dos argumentos esgrimidos, tenho estado a revisitar o tema do relacionamento entre o Governo (da Frelimo) e a Renamo, desembocando na expressão do diálogo Joaquim Chissano-Afonso Dhlakama e Armando Guebuza-Afonso Dhlakama.
Avaliar se um moçambicano de 35 anos seria capaz ou não de compreender e interpretar a história recente do país, com acento tónico no diálogo sugerido, é minha inquietação. Pensando nos 20 anos do AGP em 2012, se subtrairmos 20 anos a um cidadão de 35 anos hoje, teremos o retrato de um fedelho, passa a expressão, embora gozando de todos direitos consagrados nas leis e os costumeiros.
Se cavarmos mais fundo, para além do que um moçambicano de 35 anos elabora como análises desse processo, o que exigiremos como ferramentas? Dado que aos 15 anos, de um modo geral, não se tem bagagem em termos tais como experiência da vida (maturidade) e escolaridade, por exemplo, ele terá de ouvir e ler muito para entrar na discussão de forma adulta. Caso contrário, arrisca-se a começar a partir do meio dos acontecimentos ou do período correspondente à sua idade.
Se qualquer mortal se esquece de determinados factos e sendo isso de natureza humana, uma das maneiras de tentar superar seria a pesquisa porque hoje, com 35 anos, não são poucos os moçambicanos com diploma universitário, embora continuem uma minoria. E Nicolau Maquiavel diz mesmo em outras reflexões: (…) os homens se esquecem mais rapidamente da morte do pai do que da perda de património”.
Essas e outras questões justificam a minha insistência de voltar ao princípio para analisar o diálogo sugerido, primeiro, Joaquim Chissano-Afonso Dhlakama e, segundo, Armando Guebuza-Afonso Dhlakama. Mas darei apenas dos exemplos similares do diálogo: Fórum Presidencial e Conselho de Estado, correspondendo aos períodos de governação de Chissano e de Guebuza, esta, ainda, em curso.
Reflicto sobre a interpretação das exigências do Governo e dos próprios Presidentes  da  República, de observância das leis e respeito pelas instituições, como legalismo, como tem sido voz corrente. O dicionário da língua portuguesa, à mão, define o legalismo como “atitude teórica ou prática que consiste em considerar apenas a legalidade, isto é, as exigências da lei positiva, sem ter em conta a lei natural, a equidade e a caridade”.
Apela-se, por assim dizer, que o Governo abandone o formalismo para atender à necessidade de preservação da paz, perante as reclamações e exigências de Afonso Dhlakma/Renamo.
O verso da moeda pode não ser analisado e é aí que considero que alguma equidade se olvida. Leia-se as declarações de Dhlakama, publicadas na edição de 10 de Fevereiro de 1995 do semanário Savana, página 4, com o título: “Eu não vou participar no fórum presidencial”:
“O líder da Renamo disse ao Savana que ele não vai participar no fórum presidencial de consulta a ser criado oportunamente pelo Presidente da República, Joaquim Chissano.
Dhlakama argumenta que de acordo com informações que lhe chegaram, Chissano quer juntar líderes políticos, empresários, académicos e religiosos para uma simples troca de ideias sobre vários assuntos da vida nacional.
Dhlakama pensa que sendo um organismo que não está previsto na Constituição nem em nenhuma lei, essa consulta ‘vai sempre parecer um favor que o Chefe do Estado faz’ e por conseguinte, ‘será facultativo, para ele, aceitar as propostas e sugestões que surgirem’.
Afonso Dhlakama diz peremptório:’eu, se esse fórum não for criado através de uma lei que indique claramente qual é a função e a sua força, não irei participar nele’.
Este político diz que sem a força da lei, o fórum funcionará quando e como o Chefe do Estado entender e as suas deliberações não serão vinculativas de nenhuma forma ao Presidente da República.
‘Eu só posso estar no fórum se o Parlamento criá-lo a partir de uma lei. Assim, vamos lá, discutimos, forçamos o Chefe do Estado a tomar decisões ou a introduzir mudanças’, comenta Dhlakama sentenciando, entre gargalhadas, que basta de lá ir ter com ele, sugerir uma série de coisas e ele dizer que ‘vou estudar’ e depois ficar calado eternamente’.
Segundo ele, a experiência que tem de consultas com Chissano não é de toda ‘boa’.
‘A gente encontra-se, trocamos ideias, ele ouve, os secretários fartam-se de tomar notas, mas depois diz que vou estudar, vou avançar nesse sentido, mas depois cala-se’.
Domingos Arouca, é outro dos políticos que já comentou publicamente que este fórum é inconstitucional, carecendo portanto de força legal para ser coisa credível”.
O “Diário de Moçambique” de 11 de Fevereiro reproduziu parcialmnte as declarações de Dhlakama, com o título: “Dhlakama não fará parte do fórum presidencial”.
Voltando à definição de legalismo, pode-se pôr em questão se Dhlakama não estaria a sê-lo (legalista), não dando importância à equidade e caridade. Aparentemente, rejeita a caridade, ao afirmar que um encontro com os líderes políticos e outras figuras nomeadas “vai sempre parecer um favor que o Chefe do Estado faz”.
Essa é a época de Chissano, que Dhlakama também acusou de ter instituído totalitarismo e, no seminário “Eleições, Democracia e Desenvolvimento”, em Junho do mesmo ano, afirmou não poder conter os ânimos (exaltados) do povo. Chegou mesmo a exigir revisão da Constituição e eleições antecipadas, entre outras declarações de insatisfação contra a governação de Joaquim Chissano.
Chissano termina o seu mandato em 2004. Armando Guebuza é seu sucessor eleito na votação de 1 e 2 de Dezembro do mesmo ano.
A Constituição da República, aprovada pela Assembleia da República a 16 de Novembro de 2004, responde ao que Afonso Dhlakama exigia, quando se recusava a integrar o fórum presidencial da iniciativa de Joaquim Chissano, de só “ estar no fórum se o Parlamento criá-lo a partir de uma lei”.   
Cria-se o Conselho de Estado (CE) como órgão de consulta do Presidente da República em 2005, em conformidade com o disposto na CR.
O CE é presidido pelo Presidente da República, com competências tais como de aconselhar o PR no exercício das suas funções sempre que este o solicite e ainda pronunciar-se obrigatoriamente sobre a dissolução da Assembleia da República; declaração de guerra, do estado de sítio ou do estado de emergência; realização de referendo (…) e convocação de eleições.
Se, de facto, o problema de Dhlakama fosse de existência de uma lei, teria tomado posse e estaria a exercer as suas funções de aconselhar o PR e de se pronunciar sobre as matérias referidas como membro do CE.
Joaquim Chissano não conseguiu ter Afonso Dhlakama no previsto fórum, devido ao formalismo, mas nem o legalismo, se assim se pode dizer, através da Assembleia da República, no período de Armando Guebuza, fez o presidente da Renamo mudar de atitude.
Pode-se pensar, em última análise, que o problema de Dhlakama pode não ser o das leis, pois mesmo quando estas são aprovadas, respondendo às suas inquietações, não muda. O que é então? Não sei. Mas dá para reflectir e assegurar a construção de factos e não ficção. Umas vezes, Afonso Dhlakama quer leis mas outras, não quer saber das leis.
Não seria o Conselho de Estado um espaço para diálogo, mesmo ao tempo em que Chissano pensava em fórum presidencial tido como ilegal? Vou pensando se é possível discutir sobre legalismo, com isenção, para se conseguir encaixar as preocupações de Afonso Dhlakama de forma compreensível. Parece-me que se a atitude do presidente da Renamo não for bem estudada, as respostas aos problemas emergentes em cada ciclo político ou no quotidiano podem não ser achadas, porque há o risco de se pensar em novas ideias quando nada mudou.
As leituras que de há um tempo a esta parte faço, sistematizando informações, apontam para questões mais complexas, senão mesmo para a falta de cuidado ou desatenção, do que pensar em afastar o legalismo no tratamento de assuntos em estado latente, os quais desafiam as fórmulas até aqui aplicadas para os resultados que um moçambicano de 35 anos pode ignorar se não pesquisar o passado. (X)






terça-feira, 9 de julho de 2013

Não matar “Renamo”, mas “Renamo” matar

Antes que se façam juízos de valor sobre o título, não se pretende mais do que dizer que deveria haver uma pressão enorme sobre a Renamo, nacional e internacionalmente, para que Afonso Dhlakama não continue a dar ordens aos seus guerrilheiros para matar civis nem militares ou paramilitares.
Se assim fosse, os apelos da oposição extraparlamentar, de desarmamento da Renamo de forma pacífica, teriam maior impacto. De contrário, embora apoie o desarmamento sem derramamento de sangue, estou preocupado com o facto de a Renamo ter carta branca, para fazer as suas reivindicações sempre recorrendo à violência.
Começo a pensar que os moçambicanos têm que encontrar outras formas de lidar com a Renamo, sem falar necessariamente de actos violentos, mas outros que levem esta organização simultaneamente política e militar a rever os seus métodos no contexto do Estado de direito democrático.
E os moçambicanos, infelizmente, são induzidos em erro de se pensar que em Moçambique temos dois elefantes, o Governo (Estado) e a Renamo, e depois o capim, os cidadãos ou o povo se assim quiserem.
 “Quando dois elefantes lutam o capim é que sofre” – diz-se, mas acho que nos deveríamos envergonhar de vinte anos depois ainda pensarmos que a Renamo representa uma grande força militar, quando, à luz do AGP, se transformou em partido político.
Há, com insistência, um esforço de equiparar as forças de defesa e segurança a guerrilheiros da Renamo. Mais do que equiparação, os guerrilheiros da Renamo são apresentados como mais fortes do que a FIR, FADM e PRM juntos.
Em última análise, quer-se colocar Afonso Dhlakama acima de um presidente de partido político. Por quê?
Com o AGP, numa situação normal, teríamos um elefante, o Estado com as necessárias forças de defesa e segurança para se poder defender de elefantes externos e defender a soberania e os moçambicanos.
Gastou-se tanto dinheiro para desarmar a Renamo, debalde, porque manteve os seus guerrilheiros no activo e podem estar a receber dinheiro que o Estado dá à Renamo para o seu funcionamento normal, quando o dinheiro visa fins políticos e não militares.
Por outras palavras, o capim trabalha para alimentar um elefante que depois do AGP não deveria existir, mas não se apercebe disso e, por isso mesmo, esse capim contribui para a existência nociva desse paquiderme.
Já não deveríamos falar de dois elefantes em Moçambique e em vez de se dizer que as forças de defesa e segurança não devem desarmar com recurso à violência os guerrilheiros da Renamo, o razoável seria: a Renamo deve abandonar Sadjunjira e outras bases, por ser um partido político.
O que se reproduz é a exigência de Dhlakama de que as forças de defesa e segurança devem sair de Sadjunjira.
A Renamo deveria ser pressionada a sair de Sadjunjira e a fazer reivindicações em conformidade com as leis, tal como o Governo tem sido pressionado em outras matérias (de governação).
É que se torna paradoxal que se dê carta branca  à Renamo para matar, incluindo por alegadas provocações da Frelimo, quando, quanto a mim, Afonso Dhlakama não deveria criar condições para ser provocado.
Por fim, a pergunta: afinal quem o culpado do estágio actual de tensão em Moçambique, a tensão provocada pela Renamo? Se pensarmos no facto de ao longo do tempo se ter tolerado a existência de uma força residual em nome de guarda presidencial que, como se pode ver, não era para a segurança de Afonso Dhlakama, mas sim um força através da qual a Renamo se serve para se furtar à convivência democrática, quem foi? Será que o discurso do capim mudou em relação aos homens da Renamo?

E depois, a imagem de Afonso Dhlakama, aparentemente, depende da vontade de sectores de imprensa, com todo o respeito, que podem-no apresentar hoje como ditador e arrogante com uma longa lista de vítimas, mas, amanhã, de vilão passar para o homem cheio de razão. Seria bom que alguns jornalistas fossem folhear o que escreveram em 2008 acerca de Dhlakama, os adjectivos que usaram para qualificá-lo. 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

auto-estima

Auto-estima feminina beliscada no “chapa”
A mulher já estava dentro do “chapa”. Era um dia chuvoso, diferente de alguns borrifos do tempo seco. Prestes a desembarcar, ela sentiu que os seus pés pareciam mais leves do que o habitual. Não se conteve: “Esqueci os meus sapatos na paragem…”
Canal aberto a comentários. Formaram-se espontaneamente dois grupos opostos activos. O terceiro, silencioso, desempenhou o papal semelhante ao do telespectador diante do ecrã da televisão ou de leitor com os olhos cravados no jornal ou de ouvinte a escutar atenciosamente a rádio: a sua opinião permanece desconhecida por não ter sido expressa.
Uma das alas até queria ver como os pés dela estavam, a fim de ter a certeza se alguma vez tinham usado calçado. Talvez à procura de calos, dedos apertados ou outras marcas características de quem habitualmente ande calçado ou, de contrário, se movimente de pés nus.
A pesquisa não resultou. Estando sentada, era quase impossível, mesmo para o passageiro ao lado, tirar a prova dos nove.
Depois de ter declarado o esquecimento em voz alta, ela não mais falou. A conversa, na verdade um autêntico debate, foi para os outros passageiros. Ela estava cabisbaixo como se tivesse cometido um grave erro, com o rosto a desfigurar-se, denotando um certo mal-estar. Estava encolhida e parecia a mais magra dos quatros passageiros sentados no mesmo banco.
Cada comentário duvidando do seu esquecimento, parecia um punhal cravado na sua auto-estima. Era uma mulher de menos de quarenta anos, alfabetizada, mas vítima de enxurradas que só o autarca e o séquito consideram-nas de coisa de pouca monta. Bastaram visitas a algumas ruas principais, para se chegar a essa conclusão. Ninguém falou do verdadeiro drama vivido pelas famílias no interior da periferia da urbe que cresce de forma desordenada no antigo pântano insalubre, onde ninguém quer ouvir pronunciada a palavra chuva porque, independentemente do volume, é prenúncio do agravamento dos problemas da insalubridade urbana.
Ela vivia nesse mundo, que não o aceitava, como se coabitasse com quem, por ironia do destino, estava ligado por cordão umbilical. Tinha noções do que é viver bem, o contrário da aparentemente imutável realidade em que ela e a maioria dos munícipes sobreviviam.
A mulher descalça e, por isso, com auto-estima beliscada, receava encontrar-se com alguém conhecido do seu suposto ou ideal “status”. Por isso, não sabia se devia retornar ou não ao ponto de partida. Sentia-se meio envergonhada como se a nudez fosse semelhante à dos primeiros seres da espécie humana expulsos do paraíso.
Era um dilema: continuar a viagem até ao destino, onde tinha um dever inadiável por cumprir ou apanhar um “chapa” de regresso a casa, mas correndo o mesmo risco de ser vista descalça a andar pelas ruas da baixa da cidade.
A realidade era bastante perturbadora senão mesmo cruel, de um esquecimento que não lembra ao diabo.
Mas, se calhar, se não tivesse pensado alto, na sua exclamação, o restante dos passageiros continuaria a ignorar os seus pés nus ou não daria importância a isso. Surpreendida com a realidade, atraiu a atenção de todos.
Especulava-se em volta disso, através de duas alas formadas de moto-próprio. Ninguém viu se outras pessoas descalças estariam no “chapa” ou não. Os comentários é que confirmavam: mais do que duas pessoas sabendo vira um comício.
Agravava a dificuldade de não saber qual entre as duas situações seria uma espécie de mal menor, dado que não tinha a certeza se reaveria o calçado. Se mesmo em casa, os roubos eram frequentes, um achado assemelhava-se uma autêntica dádiva, com a bênção das chuvas. E os sapatos tinham-lhe custado uma pequena fortuna, uma boa percentagem do seu salário de professora.
Formados dois grupos opostos, o primeiro concluiu que se se esqueceu dos sapatos numa paragem é porque habitualmente andava descalça. Isso dito em voz alta, deixou a mulher cabisbaixa, humilhada.
Ela não respondeu a nenhum comentário, mas também ninguém lhe perguntou em que circunstâncias se tinha esquecido dos sapatos, senão a certeza de que saíra do interior da periferia até à estrada alcatroada e esburacada, a fim de apanhar o tão procurado “chapa”, e fez, como sói dizer-se, o que é comum: apresentar-se bem em locais públicos.
“Não é possível. Quando alguém não está habituado a andar descalço, logo se apercebe de que algo falta” – defendia uma ala dos comentadores, liderada por um indivíduo aparentemente jovem, dando largas ao seu entendimento e interpretação dos esquecimentos. 
Ele, com algum apoio, explicou: “Se, por exemplo, eu sair de casa sem celular, apercebo-me de que algo falta…”
O debate tornava-se mais interessante e a mulher permanecia calada, praticamente ignorada. Um, da ala silenciosa, ia pensando, de forma interrogativa: “Em vez disso, não seria bom perguntarmos se tem dinheiro para comprar uns chinelos, pois está estampado o constrangimento no seu semblante?”
Claro que pergunta não expressa, também tem resposta muda. E não era de espantar essa atitude de falta de solidariedade num “chapa”: quantos homens e mulheres vêem a sua roupa rasgar-se, deixando partes do corpo relativamente íntimas à vista, devido aos tantos ferros, sem que os “chapeiros” se responsabilizem por esses danos? Casos há em quem, para agravar a desgraça, o cobrador zomba do passageiro, considerando tratar-se da falta de cuidado ao apanhar o transporte ou ao descer, daí que a calça ou vestido se rasgue, sem que se ouça uma voz crítica.
A mulher desceu desolada. Se é verdade que tinha saído do interior da periferia com os sapatos na mão, além de segurar uma carteira noutra e uma criança no colo, era já constrangedor ir a uma instituição descalça. Nunca tinha sido assim. O “chapa” arrancou, ela ainda reflectia se devia continuar ou regressar à procedência.
 “É mesmo possível que ela se tenha esquecido dos sapatos na paragem. Por quê? Se tomarmos como exemplo o caso do celular, em que momento nos apercebemos de que nos esquecemos de levar? Certamente que é depois de sairmos de casa. Podemos estar perto ou longe do local onde deixamos ficar o celular…” – foram as últimas palavras que a mulher ouviu ao desembarcar. E, como que a agradecer a solidariedade, pela primeira vez olhou para a pessoa que acabava de falar. Nesse instante ambas as alas, apreciaram a beleza daquela mulher com auto-estima posta em causa pelo esquecimento e chuvas. (X)





sexta-feira, 28 de junho de 2013

DIARIO INDEPENDENTE E LONGA LISTA DAS VITIMAS DO DITADOR DHLAKAMA

Olofsson, uma potencial candidata a 
presidente da Liga Feminina da
Renamo, há um numeroso grupo de 
militantes e quadros da perdiz que 
foram sendo afastados, um porum, em 
episódios que sempre cheiraram a 
ditadura do líder.
Vejamos a lista que o MAGAZINE, 
o irmão mais velho do Diário
INDENPENDENTE, conseguiu
elaborar: 
negociações de paz de Roma caiu em 
desgraça, depois de uma história mal 
contada por Joaquim Chissano,
estranhamente aceite, de ânimo leve por 
Dh l a k a m a . Do m i n g o s h a v i a
desempenhado altas funções durante a 
guerrilha e era largamente visto como o 
número 2 da “perdiz”, representando uma 
mais valia para o partido, na frente 
política e diplomática.
Depois das eleições de 1994, foi 
Chefe da Bancada da Renamo. Aopinião 
O negociador-chefe da Renamo nas pública fixa que ele caiu por ser visto 
As bases do partido Renamo, a nível da do candidato Namburete.
cidade de Maputo, comandadas pela Chefe De nome completo António Augusto 
Regional Sul, Gania Mussagy, anunciaram, na Eduardo Namburete, nascido em Novembro 
manhã de ontem, numa reunião em que se de 1968, hoje, para além de ser docente 
fizeram presentes os membros daquele partido universitário na maior universidade do País, a 
a nível da cidade, Eduardo Namburete como Universidade Eduardo Mondlane, é também 
candidato ao município de Maputo. deputado à Assembleia da República pela 
Contactada a propósito, a porta-voz do bancada da Renamo-União Eleitoral, círculo 
gabinete eleitoral daquela formação política, eleitoral do Maputo.
Maria Ivone Soares, explicou à equipa do Segundo o seu net blog, sente que precisa 
Diário INDEPENDENTE que a eleição de de partilhar os seus pontos de vista com os 
Namburete foi caracterizada por um ambiente munícipes da cidade de Maputo, que o 
saudável e de festa, onde os outros candidatos elegeram para seu representante, bem como 
a candidatos ao município de Maputo, partilhar com o mundo um pouco daquilo que 
nomeadamente Fernando Mazanga e Jeremias é o seu pensamento sobre Moçambique, Pátria 
Pondeca, retiraram a sua candidatura, a favor que também o fez homem. A.Moyana 
Director: Salomão Moyana Editor: Lourenço Jossias Maputo, 03 de Setembro de 2008 * *
PUB
Ano I n. 105
De segunda a sexta, o seu jornal electrónico registado sob o n° 06/GABINFO-DEC/2007 * Propriedade de ZAMBEZE 
MULTIMEDIA, SA Sede: Av. Eduardo Mondlane n° 1113, 1° andar flat 1- Maputo Moçambique
Tel/Fax:21 328 579 - Telemóvel: 82 3031283 - E-mail:magazine@tvcabo.co.mz
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Singulares
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40 USD
Trimestral
60 USD 120 USD
120 USD
240 USD
Empresas 480 USD
NB: O valor pode ser pago em Metical ao câmbio do dia
PUB
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De Raul Domingos a Linette Olofsson e David Aloni
A longa lista das vítimas 
do ditador Dhlakama
Raul Domingos O líder da
Renamo já tem uma longa lista de 
vítimas, da sua acção arrogante e 
irresponsável, tendo alguns, até, já 
morrido de desgosto por tanta
humilhação, num partido que se diz 
democrático. Desde o caso mais 
mediático de Raul Domingos, que foi 
expulso depois de um golpe de mestre 
de Joaquim Chissano, acatado, de 
pronto, por Dhlakama, a Linette 
A polémica comissão 
Política da Renamo
A Comissão Política da Renamo, 
que ora delibera que Simango e outros 
presidentes dos municípios governados pela Renamo são candidatos
automáticos, ora obriga Manuel
Pereira a pedir desculpas e a retirar a 
candidatura, ora ainda indica Manuel 
Pereira como candidato oficial da 
“perdiz” no Chiveve é constituída 
pelos seguintes ilustres:
Afonso Dhlakama
Gania Mussagy
Jerónimo Malagueta
João Alexandre (já falecido)
Maria Inês
Rui de Sousa 
Eduardo Namburete aposta 
da Renamo em Maputo
Dcomo sombra do líder, este que é um potencial acabou morrendo, dia seguinte, sozinho, na sua 
ditador. residência, na Matola.
David Aloni, que era também membro do 
Dr. Joaquim Vaz Conselho de Estado, era nosso colaborador e 
pessoa amiga.
Antigo Secretário particular de Dhlakama À família enlutada, a Direcção e todos os 
na guerrilha, Joaquim Vaz foi nomeado colaboradores do MAGAZINE endereçam as 
Secretário-geral da Renamo depois do mais sentidas condolências.
afastamento de Raul Domingos. Sena de etnia, 
tal como Domingos, uma das suas prioridades Linette Olofsson
como SG era reunificar a Renamo, tendo Foi deputada da Assembleia da República, 
proposto a readmissão de Raul Domingos. entre 1999 e 2004. Não renovou o mandato no 
Essa proposta caiu como um abuso ao líder Parlamento depois de, à última hora, ter sido 
todo-poderoso, tendo custado o cargo a Vaz, que excluída pelo líder da Renamo, em decisão 
preferiu filiar-se no PDD, o partido, entretanto, polémica que deixou feridas na dinâmica 
fundado por Raul Domingos. militante. Anos mais tarde, Linette caiu
definitivamente em desgraça, quando tentou 
David Aloni candidatar-se à liderança da Liga da Mulher da 
Foi Vice-Chefe da Bancada Parlamentar da Renamo, em conferência realizada na Beira, na 
Renamo nas eleições de 1994, tendo, também, presença, em pessoa, de Afonso Dhlakama, que 
caído em desgraça por desavenças com manipulou todo o processo a favor de uma 
Dhlakama. candidata da sua preferência. 
Depois da sua passagem pelo Parlamento, 
Aloni, um intelectual de reconhecida categoria, Benjamim Pequenino
foi indicado Chefe do Gabinete de Dhlakama, 
tendo se desatinado com o líder por não Quadro sénior da Renamo, oriundo da 
concordar com os métodos de regulado por este Zambézia, chegou a ser Presidente do Conselho 
usados. de Administração dos Correios de
Numa reunião da liderança da Renamo, Moçambique, num exercício que foi
realizada Sexta-feira, para debater a actual crise notoriamente em reconhecimento à sua
na Beira, Aloni foi o único, no seio da cambada capacidade técnica e competência como gestor.
de casmurros presentes, a dizer a Dhlakama que Tal como outros quadros com visão crítica, 
a decisão de afastar Daviz Simango tinha sido teve que se enfrentar em público com o líder da 
uma falta de respeito para com os quadros e para Renamo, acabando, mesmo, por sair, desiludido 
com os simpatizantes da Renamo. Talvez com a liderança da perdiz e com a política, em 
frustrado com a teimosia de Dhlakama, Aloni geral.
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Diário Independente - P. 2/5 - 03/09/08 - n°105
Francisco Machambisse
Deputado da AR, Machambisse também 
caiu em desgraça, depois de ter sido acusado por 
alas internas da Renamo, instigadas pelo líder, 
de ter “vendido” os resultados eleitorais de 2004 
à Comissão Nacional de Eleições onde era 
mandatário da lista da Renamo.
Desde então, Machambisse, que é também 
ndau, tal como Afonso Dhlakama, foi afastado 
dos centros de decisão da Renamo, sendo 
frequente ouvir que ele não irá renovar o 
mandato porque o “tio Afonso” não o quer ver 
por perto.
Dionísio Quelhas
Foi deputado da Renamo e influente
membro da sua Comissão de Relações
Internacionais. Eleito pelo círculo de Manica, 
viu-se impedido de renovar o mandato entre 
2005 e 2009, por intrigas alimentadas e seladas 
pelo presidente Dhlakama.
Esta não renovação de Quelhas, um
académico e professor universitário, é vista 
como uma grande perca para a Renamo, à 
semelhança, aliás, de todos os quadros que têm 
caído por má gestão da liderança.
Ossufo Quitine
Foi Chefe da Bancada, a seguir a Raul 
Domingos. Caiu em desgraça e agora vegeta, lá 
pelas bandas da Maiaia (Nacala).
Jafar Gulamo Jafar
Jurista de profissão, foi quadro sénior da 
Renamo, tendo chegado a deputado e dali a 
membro de importantes comissões de trabalho.
Orador fluente, Jafar Gulamo ajudou a 
resolver muitos problemas de índole jurídica na 
Renamo e na sua bancada na AR, mas foi 
ofuscado pelos grupos de intriguistas que 
rodeiam Dhlakama.
Caiu também em desgraça sendo que por 
ora, exerce a advocacia, fazendo militância na 
“perdiz” como simples desporto, segundo se diz.
Raimundo Samuge
Foi Chefe Nacional de Mobilização da 
Renamo e vogal do partido na Comissão 
Nacional de Eleições. Ganhou protagonismo, ao 
ser usado no processo que culminou com a 
queda de Raul Domingos, por instruções claras 
de Dhlakama.
Por ironia do destino, há uns meses que veio 
a público dizer que se afastava da Renamo por 
não ser considerado, sendo mais uma carta fora 
do baralho, mais um descontente.
Rachide Tayob
Empresário e grande financiador da
Renamo, natural da Zambézia, Rachide Tayob 
foi deputado da AR por esta bancada até que se 
desentendeu com Afonso Dhlakama, a quem 
acusa de lhe ter ficado com muito dinheiro seu, 
sob a forma de dívida contraída para financiar as 
actividades da Renamo.
Rachide acabou filiando-se no PDD, de Raul 
Domingos, quando se pensava que, nas eleições 
de 2004, o partido ganharia assentos no 
Parlamento. Depois de este objectivo
estratégico não ter sido conseguido, Rachide, 
Empresários japoneses 
sondam Moçambique
Uma missão de empresários japoneses governamentais seniores e representantes de 
visita Moçambique, desde ontem até 4 de algumas das maiores empresas nipónicas.
Setembro corrente, numa iniciativa organizada A iniciativa teve origem na cerimónia de 
pelo Governo daquele país asiático e sectores abertura da TICAD IV, realizada na cidade de 
privados japoneses, no âmbito de uma Yokohoma, em Maio último, na qual Armando 
promoção de comércio e investimentos em Guebuza, Chefe de Estado moçambicano 
África. participou , sendo este, precisamente, o
Esta missão, segundo um comunicado primeiro passo para glorificar o objectivo 
recebido à nossa Redacção, é composta por partilhado na TICAD IV, que é o da promoção 
cerca de 50 pessoas, entre as quais funcionários do desenvolvimento económico.
A longa lista das vítimas do ditador Dhlakama
Pag.4
DEditorial
Diário Independente - P. 3/5 - 03/09/08 - n°105
Se dúvidas ainda houvessem sobre os reais Cidade da Beira deixava de ser Daviz Simango e atabalhoada do maior partido da oposição
objectivos políticos do líder da Renamo, eis que as passava a serManuel Pereira! nacional;
mesmas acabam de serdefinitiva e eloquentemente Incrédulos e magoados por mais esta exibição Que a velha estratégia de Dhlakama de 
dissipadas pela sua última “jogada de mestre” ao grotesca da insensatez e da baixa qualidade dividir para reinar vai chegar agora ao fim, 
ludibriar, politicamente, durante vários anos, ao humana atrelada à liderança de um partido! porquanto, ao que tudo indica, Daviz Simango vai 
jovem engenheiro Daviz Simango, presidente do Como é que uma pessoa, mentalmente concorrer na mesma, como independente, e em 
Município da Beira, prometendo e assegurando-lhe saudável, pode ser capaz de fazer o que a liderança reconhecimento da verdadeira pressão das bases, 
renovação automática da candidatura para as da Renamo acabava de fazer? Como é que se pode que até Dhlakama pode ver através das câmaras 
eleições autárquicas agendadas para o próximo dia passar anos a dizer ao público, em geral, e ao das televisões nacionais. A candidatura de Daviz 
19 de Novembro. eleitorado beirense, em particular, que o candidato Simango, fora da Renamo, vai ter, possivelmente, o 
Ao fim de uma sessão do Conselho Nacional da da Renamo é Daviz Simango para, de repente e condão de atrair, até, o voto de algum sector
Renamo, realizada no ano passado na cidade da faltando escassos dias para terminara inscrição na frelimista relutante em apoiar Lourenço Bulha, 
Beira, Afonso Dhlakama anunciou que o Eng. CNE, vircantaroutra anedota? mas suficientemente hesitante de emprestar seu 
Daviz Simango era a aposta do seu partido para a Mas, quem pode tomar seriamente a um líder apoio a um candidato da Renamo. Estando Daviz 
renovação de mandato municipal no Chiveve. que passa a vida a faltara palavra a si próprio? Simango entre Lourenço Bulha e Manuel Pereira, 
Mais tarde, a Renamo viria a anunciar, através Nós pensamos que Afonso Dhlakama está duas figuras prenhes de paleio mas vazias de obra 
do seu porta-voz, Fernando Mazanga, que os cinco infiltrado na Renamo para sabotar esta concreta, o povo beirense tem uma oportunidade 
presidentes municipais eleitos em nome da Renamo organização por dentro, favorecendo o seu soberana de escolher a quem ama de verdade, 
em igual número de autarquias eram, aparente adversário, a Frelimo. porque seu servo dos últimos cinco anos. Aliás, 
automaticamente, candidatos à sua própria Estamos a receber informações credíveis, estamos a receber informações de empresários 
sucessão, não carecendo de passar por novas segundo as quais, a Frelimo está em festa na Beira, baseados no Maputo, Chimoio, Quelimane e 
eleições internas do seu partido. com a desgraça da decisão do líder, e faz muitos Nampula, que dizem pretenderdeslocar-se à Beira 
Mais recentemente, a 8 de Agosto findo, votos para que não volte atrás, pelo menos que tudo para irdeixaro seu apoio material e moral ao jovem 
Dhlakama convocou a comunicação social para, se mantenha assim até ao fecho do processo de Daviz Simango. 
dentre outras coisas, reafirmar que o seu partido inscrição na CNE, no próximo dia 5 de Setembro. Finalmente, é preciso duvidar-se da idoneidade 
havia decidido recandidatar, automaticamente e É que, neste momento, só Dhlakama e sua moral e humana do candidato Manuel Pereira. 
sem necessidade de eleições internas, os cinco camarilha é que não conseguem ver que Manuel Como é que um cidadão, que tanto respeitamos, é 
presidentes municipais eleitos pela Renamo em Pereira será conhecido na História da democracia capaz de aceitarserutilizado desta maneira?
2003. moçambicana como aquele candidato graças ao Há cerca de dois meses, induziram-no em 
Indagado por um jornalista sobre a eventual qual a Frelimo logrou recuperar o estratégico “erro”, diz ele, candidatando-se sem saber que o 
persistência da candidatura de Manuel Pereira Município da Beira. Aliás, parece-nos ser essa a partido já tinha um candidato. Obrigaram-no a 
para o Município da Beira, Dhlakama reafirmou intenção oculta de Afonso Dhlakama: devolver escreveruma carta a pedirdesculpas ao presidente 
que “Manuel Pereira não é candidato da Renamo Beira à Frelimo e, em troca, conseguir algumas e a prometer apoiar Daviz Simango. Fê-lo. Agora, 
para Beira; o candidato da Renamo é Daviz oportunidades económicas, poraí assim. É que com que as “comadres” se zangaram, foram-lhe buscar
Simango, Pereira já escreveu uma carta a pedir Daviz Simango, Dhlakama teria imensas para servirde “bode expiatório”. Ele aceitou!
desculpas pelo mal entendido que houve”. dificuldades de retornaro Chiveve à Frelimo. Que idoneidade tem este candidato, que tanto 
Aparentemente, eliminava, de uma vez por Daviz Simango, independentemente do partido aceita chorar como rir às gargalhadas, ao mesmo 
todas, as incertezas que ainda poderiam pairar que o pôs na Beira como autarca, dignificou a nossa tempo? Não tem sentimento próprio? Não sabe 
sobre possíveis segundas intenções da liderança da cidadania, rompeu com a arrogância do sistema, dizer: basta!
Renamo em não confiar na candidatura de Daviz segundo a qual, apenas os quadros oriundos da O presente cenário, na Renamo, materializa os 
Simango. Ficava claro, não só para os media, mas Frelimo é que podem governar com competência e nossos prognósticos insistentes, segundo os quais, 
também para todo o povo moçambicano que integridade a coisa pública; Daviz Simango uma organização do tamanho da Renamo não é 
Dhlakama estava a reafirmar uma decisão superou as expectativas da própria Renamo e 
capaz de subsistir como partido ganhador
consequente do seu partido, decisão que se baseava assustou, com a sua competência e dedicação, a 
enquanto não investir na reestruturação e no reconhecimento inequívoco de bom desempenho liderança da perdiz, habituada que está a gerir
político e administrativo do jovem edil de Chiveve, quadros fofoqueiros, funcionamento regulardos seus órgãos internos. intriguistas, preguiçosos,
o qual, É que tudo o que se diz serdecisão da Comissão inclusivamente, recebeu diversos prémios anarquistas e de curta visão política.
internacionais pela boa qualidade da sua gestão Com a exclusão injusta e arbitrária de Daviz Política é decisão pessoal do líder, muitas vezes 
municipal. Simango, a liderança da Renamo provou, quanto a tomada juntamente com pessoas estranhas à 
Com base em todas as promessas de nós, o seguinte: Comissão Política e sem conhecimento dos
continuidade da sua obra autárquica, Daviz Que Dhlakama é um autêntico líder da membros desta. Sempre que se saúda um membro Simango há muito começou a preparar-se política e desgraça em Moçambique, portanto, indigno da 
materialmente da Comissão Política da Renamo poruma ou outra para a reconquista do eleitorado confiança do povo para qualquer cargo público de 
nas eleições de 19 de Novembro, estando a responsabilidade; decisão publicamente anunciada com o rótulo 
organizar as bases não só para um voto consciente, Que Dhlakama encanta-se imenso com a daquele órgão, o membro se espanta e, em seguida, 
como também para uma vigilância redobrada imitação cega das infelicidades da Frelimo. Ou se distancia, alegando não ter sido convocado a 
contra possíveis fraudes eleitorais. seja, da Frelimo, Dhlakama apenas consegue nenhuma sessão do órgão nos últimos dois ou três 
De repente e como que o País inteiro estivesse a imitar asneiras, deixando o muito de positivo que anos! celebrar o “dia das mentiras”, eis que na tarde da aquele partido tem. Por exemplo, com esta decisão Neste sentido, nós apelamos aos munícipes da última quinta-feira, 28 de Agosto, os telemóveis da desgraçada, Dhlakama pretende igualar-se à 
Beira que se unam e apoiem, massivamente, a classe política e intelectual de Moçambique são desgraça da Frelimo de eliminar, injustamente, 
bombardeados por uma mensagem: “Viragem na Eneas Comiche. Só que Dhlakama, como sempre, candidatura independente de Daviz Simango ao 
Renamo, Daviz Simango já não é candidato para só conseguiu imitaro resultado e não viu o processo cargo de presidente do Conselho Municipal da 
Beira; o candidato agora é Manuel Pereira!” “democrático” seguido pela Frelimo. É que a Beira.
Quando essa mensagem caiu no nosso eliminação de Comiche é injusta, mas feita pelo Só assim é que se dará uma contribuição 
telemóvel, rimo-nos e dissemos, cá para connosco: órgão apropriado, ao passo que a eliminação de genuína para as pessoas saberem, de uma vez por “as pessoas fazem de todos os dias o dia das Daviz Simango é injusta e ilegítima porque feita todas, que a Política, em democracia, não é uma mentiras!”. Desprezámos a mensagem porque apenas por uma pessoa que se socorre,
actividade apropriada para malabaristas e ilógica e não digna de crédito, uma vez que esfarrapadamente, do sentimento das “bases”, 
acreditávamos, ainda, nalguma seriedade do líder bases essas que agora estão em efervescente jogadores de consciências das pessoas. 
da Renamo. manifestação pública exigindo a reposição da Para que saibam que a Política, em
Cerca de 30 minutos depois, eis que o nosso legitimidade democrática violada; democracia, deve ser feita por pessoas sérias, 
correspondente na Beira nos liga, sobressaltado, e Que Dhlakama, que foi razoavelmente organizadas e com altos valores humanos, isto é, 
nos informa que acabara de sair de uma querido pelo povo por ter lutado contra a ditadura pessoas de alta qualidade humana; pessoas que conferência de Imprensa convocada pelo delegado do proletariado em Moçambique, vai acabar como detestam a mentira e a falsidade de argumentos; político provincial da Renamo, Fernando um verme político, detestado e humilhado por
Mbararano, pessoas que não passam a vida a dizer que não o qual anunciara que, devido “à todos, exactamente por não conhecer a hora 
pressão das bases”, o candidato da Renamo pela oportuna de dizer “Adeus” à liderança disseram o que disseram!
Líder da desgraça!
D
Salomão Moyana (smoyana@tvcabo.co.mzDiário Independente - P. 4/5 - 03/09/08 - n°105
desiludido com a política, voltou a dedicar-se aos Município de Maputo pela Renamo, ao que, 
seus negócios. De Dhlakama não quer ouvir porém, o líder veta.
falar.
Luís Gouveia
João Monteiro Rumores insistentes na zona da Renamo 
Jurista, e até há pouco tempo mandatário da insinuam que este deputado da Renamo também 
Renamo na CNE, Monteiro acaba de ser vítima anda em zangas com o líder, por
de Dhlakama e afastado, precisamente, na desentendimentos de ordem estratégica.
sequência do caso Manuel Pereira/Daviz
Simango. Militares
Para além daquele grupo, numerosos
Domingos Pilal guerrilheiros desmobilizados, incluindo
Engenheiro de profissão, já falecido, Pilal foi generais, foram sendo afastados por Dhlakama 
deputado da AR pelo círculo de Nampula. Foi das esferas de influência do partido. Entre eles se 
injustamente afastado do seu círculo eleitoral e incluem alguns fundadores da Renamo que 
vitimado, caindo em desgraça no partido andam a vegetar, alguns operacionais com quem 
Renamo. fez a guerra até 1992 e muitos que, até há bem 
pouco tempo, faziam parte da sua decadente 
Rahil Khan força de protecção pessoal.
Visto, muitas vezes, como um grande aliado Estas são algumas das vítimas de Afonsinho, 
de Afonso Dhlakama, correm vozes que sugerem o homem que já foi líder da Renamo, mas que, 
que as relações entre ambos se vão deteriorando agora, acaba de decretar o seu próprio fim, 
a cada dia que passa. Insinua-se que Khan tem claramente bem próximo. 
pretensões de se candidatar à Presidência do 
A longa lista das vítimas do ditador Dhlakama
Industrialização 
rural 
em passos firmes
A directora da Unidade Técnica para a 
Promoção da Industrialização Rural
(UTPIR), Odete Samba, assegurou, ontem, 
na FACI M , que o proc e sso de
industrialização em curso no País está a 
avançar a passos firmes, na medida em que, 
actualmente, Moçambique já conta com 
cerca de uma centena de pequenas unidades 
industriais, dispersas em todo o território 
nacional.
No que se refere ao suporte financeiro destas 
unidades industriais, Odete Samba aponta para 
o fundo de investimento para projectos de 
iniciativa local, vulgo sete milhões de meticais, 
ao qual se adicionam outras fontes que a própria 
UTPIR tem identificado, para assegurar o 
alastramento da industrialização nas zonas 
rurais.
AUTPIR, criada há um ano pelo Ministério 
da Indústria e Comércio (MIC), encontra-se a 
operar sob o suporte de cinco pilares,
nomeadamente, financiamento de projectos, 
pro m oç ão, for m a ç ão, m e r c ado e
desenvolvimento tecnológico.
“Além dos sete milhões de meticais, temos 
que buscar outros financiamentos (para
assegurar a rápida industrialização rural)”, 
anotou Samba, para quem, em termos de 
qualidade da produção em pequenas unidades 
industriais dispersas pelo país, ainda há muito 
por se fazer.
“Nunca estaremos satisfeitos, temos que 
continuar a melhorar, queremos mais indústrias 
de qualidade, ainda há muito por se fazer”, 
realçou.
Ainda para ilustrar avanços, Samba fez 
saber que contrariamente à edição passada da 
FACIM, na qual, a UTPIR ocupou um espaço de 
cinco metros quadrados, este ano teve que 
recorrer a nove metros quadrados, para
conseguir acomodar as seis empresas de
agroprocessamento nos distritos. DM
Na FACIM
Niassa exibe desenvolvimento 
e atrai visitantes
A província do Niassa, que, na Segunda-feira 
passada, teve o seu dia, no qual apresentou as 
suas potencialidades em várias áreas da “vida” 
económica, reclama estar a atrair vários
visitantes, dado o nível de desenvolvimento aí 
exibido. 
A informação foi dada ontem ao DI por 
Bernardo Luís, de Niassa, que é estudante numa 
universidade da capital do País e que se encontra 
a acompanhar a pujança produtiva da sua 
província, exibida na 44ª edição da FACIM.
“O Ni a ss a é u m a p r o v í n c i a e m
desenvolvimento, já passou da fase de
esquecimento e é, actualmente, um destino que 
merece respeito”, disse Luís.
Em relação à Segunda-feira, que,
coincidentemente foi o dia da abertura, Luís 
contou-nos que a exposição da sua província, a 
partir daquele dia, atraiu muitos visitantes facto 
que continua a verificar-se.
“ Aapresentação que fizemos, durante o dia da 
nossa província, cativou curiosidades e as 
pessoas já querem saber mais sobre o Niassa; 
nela exibimos as nossas potencialidades em 
vários domínios”, concluiu.
A província do Niassa, com uma superfície de 
122.176 quilómetros quadrados, tem uma 
densidade populacional de oito habitantes por 
quilómetro quadrado e a sua pujança económica 
incide, essencialmente, em agricultura (algodão, 
milho, tabaco, trigo e soja); recursos minerais 
(ouro e pedras semipreciosas) e pecuária (gado 
caprino, bovino e ovino). DM
O Executivo moçambicano e os parceiros de 
desenvolvimento reúnem-se hoje na capital do país 
naquilo que será a segunda reunião semi-anual de 
revisão conjunta do Programa Integrado do Sector de 
Estradas (PRISE), para os anos 2007 a 2009, na 
medida em que, no quadro da implementação do 
mesmo programa, orçado em cerca de um bilião de 
dólares americanos, foi acordada a realização de duas 
reuniões de balanço em cada ano.
No encontro de hoje, o Governo e parceiros vão 
acertar as contas do desempenho dos primeiros seis 
meses do presente ano e será ainda apresentada a 
proposta de alteração do quadro de avaliação de 
desempenho, bem como o plano de actividades 
para o segundo semestre. O PRISE, a ser 
implementado durante o período 2007/2009, faz parte 
da estratégia nacional do sector de Estradas
(2007/2011), que visa assegurar uma maior
transitabilidade nas estradas moçambicanas, através 
da construção, manutenção e reabilitação de estradas 
e pontes.
O programa está orçado em cerca de um bilião de 
dólares americanos, 30 por cento dos quais a serem 
alocados pelo Governo moçambicano e outra parte 
pelos parceiros de cooperação.
Importa lembrar que o ponto mais alto da aplicação 
do PRISE foi a reestruturação da Administração 
Nacional de Estradas (ANE), que, segundo os 
doadores, levou mais tempo que o esperado.
Governo e parceiros 
acertam contas
Sector de estradas
D
D

quinta-feira, 20 de junho de 2013

DEBATE COM (NOSSOS) ESTEREÓTIPOS

(1ª greve na Saúde foi em Janeiro de 1990 – há 23 anos)
Superando ou não outras especializações ou práticas profissionais, o jornalismo político está em florescimento, a par do debate político na comunicação social. É um exercício interessante da liberdade de expressão (de manifestação livre de opiniões, ideias e pensamentos), sem a qual seria outra coisa falar de democracia moderna. Mas pode estar repleto de estereótipos.
Mais do que isso, contribui para rever o que Leôncio Basbaum, em “História e Consciência Social”, caracteriza como sendo as reacções dos indivíduos perante problemas, reunindo os actores, por exemplo, em “grupos simples, grupos sociais ou primários e grupos psico-sociais”.
Algo interessante se passa em tais grupos: socorrendo-me de Basbaum, há aqueles que na fase de delírio, devido ao incumprimento de horário de machimbombo, assim que este meio de transporte chegasse à paragem, horas depois do previsto e apesar de esgotada a paciência, ocupariam os seus assentos. Com isso, esse grupo psico-social faria uma descarga emocional e voltaria ao estado normal, cada um na sua individualidade.
Mas outros, em situação semelhante, agrediriam o motorista, partiriam os vidros e provocariam outros danos ao autocarro, como forma de descarregar a sua emoção, numa manifesta ausência da consciência, de raciocínio puro e de julgamento frio.
Bausbaum considera, para os que espancariam o motorista e danificariam o autocarro, não haver “uma lógica racional em destruir” o machimbombo, senão a de uma “criança que bate na quina da mesa em que se feriu”. “O objectivo é apenas o que resultou da lei de acomodação: quebrando o ônibus (machimbombo) eliminam a carga emocional e voltam ao estado normal”.
As opiniões, em relação a tais actos, analisando a actual realidade, estariam divididas. Sendo um transporte público, haveria quem lhes desse razão, porque é dever do Estado assegurar esses serviços a tempo e horas. Outros, porém, condenariam a agressão ao motorista e danos ao autocarro, defendendo que nenhuma das reacções se justifica, apelando ao bom senso.
Se bem que estaremos até ao fim dos dias de cada um na terra com reacções comedidas e de delírio, destacando-se o facto de o delírio ser a característica da actuação das multidões, com o desaparecimento do raciocínio (para dar lugar ao delírio) – e é por isso mesmo que até temos linchamentos – em que ninguém, no caso de autocarro, quererá saber os porquês do atraso, se houve avaria ou não, se ocorreu acidente e outros problemas para que não fosse respeitado o horário, prestando atenção aos nossos debates e a forma como os acontecimentos são discutidos e analisados, há aparentemente nisso um défice de equilíbrio, com alguma amnésia pelo meio sobre factos.
Se a greve liderada pela AMM e CPSU, suspensa sexta-feira e sábado, fosse um exemplo, seria: por um lado, um grupo que aceita que o Governo não tenha fundos para satisfazer as reivindicações dos médicos nos moldes exigidos e que o problema de salário não afecta apenas os médicos, mas outro que nega todos os argumentos e considera faltar vontade (política), importando-se ou não com os demais profissionais ao serviço do Estado.
Quando o Governo afirma que o orçamento da Saúde nos últimos anos tem estado a subir, observando ser importante referir que alguma ajuda externa já não está a cair nos seus cofres e por isso mobiliza recursos internos, há um grupo que admite tal facto, mas outro garante que o orçamento tem estado a baixar – são estatísticas desencontradas e desequilibradas, completamente com resultados opostos, talvez de fontes diferentes.
Este exemplo demonstra, só por si, que há défice de equilíbrio. As informações que circulam tendem a não ter nenhum ponto de equilíbrio e disso resulta uma escolha de cada um, se acredita na fiabilidade desta ou daquela fonte. É nocivo porque as consequências são graves, provocam o exacerbar dos ânimos e peca por mostrar realidades antigas como casos ímpares no contexto social, económico e político de  Moçambique, que nunca antes aconteceram, falseando-se de algum modo a história.
Talvez ocorra o que um porta-voz de uma organização política disse, certa vez, afirmando que omitir não é mentir, pois, em defesa da imagem da sua organização, pode fazer de contas que determinados factos não aconteceram, reportando os mais convenientes. Que dizer, deste pronunciamento!
Quero acreditar que entre moçambicanos, e estrangeiros, a greve de Janeiro deste ano foi vista como a primeira na história da Saúde. Mas, se recuarmos no tempo, aproximando-nos das primeiras greves, período em que até jornalistas do actual sector público foram grevistas, podemos encontrar elementos surpreendentes.
O Ministério da Saúde já enfrentou greves e conheço funcionários públicos que depois disso não mais voltaram a ser, por exemplo, enfermeiros, embora tivesse ficado nessa altura com a impressão de terem abandonado a Saúde por vontade própria.
O que tinha acontecido nesse período? É uma questão importante porque, de contrário, cimentaremos ideias que podem não constituir à verdade sobre a actual realidade moçambicana e, como sempre, o passado será convocado como um dos períodos áureos da nossa história e sem igual – não se pretende dizer que estamos bem, mas, provavelmente, que “estamos a viver mesmo assim”, como canta uma banda angolana.
Relata-nos o “Diário de Moçambique” de Janeiro de 1990, que uma grave dos trabalhadores da Saúde teve início no Hospital Central de Maputo no dia 8 (de Janeiro). Era ministro Leonardo Simão – de propósito não me vou referir a outras figuras do Governo dessa época, por achar escusado. Simão é citado a afirmar: “Ninguém pode dar o que não tem”. ( 23 anos depois, o que se diz?) Ele respondia aos grevistas e disse mais, citado na edição de 18 de Janeiro:
“Há casos de reivindicações sobre regalias não previstas na lei, que foram abolidas ou contrariam a legislação em vigor. Por isso, a sua satisfação não é possível, devido sobretudo ao empobrecimento económico em que o país se encontra mergulhado”.
O ministro, mesmo assim, garantiu que seriam estudadas alternativas de aumento salarial, solucionados casos pendentes das carreiras profissionais e concluído o quadro do pessoal do Ministério da Saúde – conjecturando: de 1975-77 até Janeiro de 1990, a Saúde não tinha o quadro do pessoal completo.
Tal greve se repercutiu no Hospital Central da Beira (HCB) a partir de 16 de Janeiro de 1990. O “DM” relata nos dias posteriores que os enfermeiros básicos, que tinham enviado um caderno reivindicativo ao Ministério de Saúde em Dezembro de 1989, exigiam como salário mínimo 80 mil meticais, contra os 33 mil que recebiam, pagamento de bónus de antiguidade, remuneração de risco de vida, enfim, melhores condições salariais e de vida.
Se todos nos recordássemos desse historial e tivéssemos pontos de equilíbrio, as nossas discussões, reivindicações, atitudes seriam menos dolorosas e não correríamos o risco de branquear a história – o nosso passado foi de sofrimento também. O que se reivindica hoje, foi exigido, em parte, em 1990.
Mas passamos a vida a não encontrar um cruzamento para analisarmos os nossos problemas, de propósito ou não. E aí lamento porque no caso de nós jornalistas, não só temos a obrigação de conhecer a história de nossa profissão, mas também a do país.
Mas o que me preocupa mesmo, sublinho, é o défice de equilíbrio e alguma amnésia à mistura. Andamos nos extremos. É isso que nos leva a construir um vocabulário cheio de adjectivos para nos qualificarmos uns aos outros. E Mia Couta dizia: “A imagem que nós temos uns dos outros é feita muito de clichés (…)” 
(Só para se compreender o que aconteceu. Punha-se a Mia Couto, no Brasil, a pergunta: Quais sãos os maiores problemas de Moçambique hoje? Em resposta disse: “ Antes de responder à pergunta, eu vou dizer uma coisa. A imagem que nós temos uns dos outros é feito muito de clichés, de estereótipos”)